
Eu devo ter um cheiro igual ao de alguns animais. Semelhante a alguns animais. Um cheiro forte. Pestilento. Colado à pele. Colado à carne. Um cheiro que não é humano suportar. Um cheiro enjoativo. Nojento. Intenso. Que se arrasta a cada passo. Que não se faz sentir inicialmente. Que descansa no inícios. Para que estes existam. Para que haja um ponto de partida. Mas que a uma dada altura se liberta. E expande. E fortalece. E tudo e todos desaparecem. Fogem. Sem uma palavra. Sem um beijo. Sem um aperto de mão. Sem um olhar. Sem um adeus. Sem um nada. Nada. Nada. Terei de me lavar? De me esfregar com o detergente da loiça? De me escamar? De me pelar? Não sei. Não sei porque não o sinto. O meu cheiro assustador. De pessoas. De homens. De amantes. Vomitam-se. Pois vomitem-se. E tenham náuseas. E sintam-se prestes a parir. Engravidem. Na cabeça. Nas mamas. No corpo. E vomitem-se. Em saliva. Em bílis. Amarela. Cinza. Esbranquiçada. Rosa. Azul. Um arco-íris de entranhas. Bem feito. Bem feito. Sou gente. E mereço uma palavra. Sou gente. E nem sou gente convencional. Sou gente.
Tenho dificuldades em entender-te. Em entender o teu sentido de humor. Em perceber o que queres. E que procuras? Questionas. Respondes. Tens sonhos. De culpa. De imagens. Os meus falam em aceitação. E nos perigos de ser assim. Desconcertante. Homem desconcertante.
O miradouro estava cheio. Cores e coloridos. Vozes. Línguas estranhas em palavras gritadas. Penteados em cachos. Risos e fumos. Barcos ao fundo. E luzes. E pontes. Uma ali. Outra além. Os telhados que se acercam. E os olhos. Os olhos que doentes de tanta gente se fecham. Os corpos que se encostam. E eu vou lá. Espreito. Aproximo-me. Mas somente de manhã. Somente quando me desloco para cima. Para ver os restos. A porcaria. O lixo. E todo o absurdo humano. Todo o absurdo das noites de divertimento. Como quem quer esquecer a vida. Como quem bebe para não viver. O absurdo de destruirmos tudo o que tocamos. As garrafas. Os copos. E os ambientalistas. Os vegetarianos. Todos. Deixam o lixo ali no chão. Porque a noite é longa. E nós. Nós temos de nos divertir. E beber. E rir. E pago-te um copo. E tu a mim. E jantamos? Jantamos. Fazes tu o jantar. E quando menos esperares enfio-te o pano de cozinha na boca e fodo-te por trás. Assim. A seco.