quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Pedras


Kevin Bubriski

Existe um palco. Nele um homem sentado numa cadeira. A seu lado, a cerca de três metros, um outro homem está sentado numa outra cadeira. A cadeira onde está sentado o primeiro homem de vez em quando range. Os dois homens não se olham. Olham para a sua frente. No publico sentado na sua frente. Os dois homens estão sentados como se desconhecessem a existência um do outro. O primeiro homem veste um casaco de malha bege que pende do seu lado direito. Do lado onde o segundo homem se encontra sentado. Se o segundo homem o olhasse poderia talvez sentir a leveza com que o casaco de malha pende do corpo magro do primeiro homem. Mas o segundo homem não o olha. Olha no publico. Olha em nós. Onde me encontro. Onde me encontro sentada. Onde me sentei depois de descer o corredor escuro com carpete vermelha. Sei que é vermelha porque lhe sinto o cheiro a mofo. Porque assim quero que seja. Porque assim a imaginei. Olho nos dois homens que olham em nós. Tento ver se os seus olhos me olham. Não consigo. Está demasiado escuro e os homens demasiado parados. Observo a gola da camisola de lã azul do segundo homem sentado no palco. A gola está subida mas enrolada, desajeitadamente dobrada sobre o pescoço. Tenho vontade de endireitar a gola do segundo homem sentado no palco. De lhe dar um jeito. Tento abstrair-me da gola e olho nas pessoas que sinto sentadas em ambos os lados. O publico a meu lado faz parte da cena. Também ele se encontra parado e imóvel. Por vezes oiço ranger uma cadeira. Tento verificar se é a cadeira do primeiro homem. Por vezes é. Noutras o som vem de trás de mim. Alguém. Talvez um outro homem se tenha sentado numa outra cadeira que range da mesma forma que a cadeira onde está sentado o primeiro homem sentado no palco. Olho nos dois homens. Nos dois homens com mãos caídas entre as pernas. Olho e aguardo. Aguardo que algo aconteça. Que digam algo. Que se levantem. Que comecem. Que se olhem. Aguardo. O publico a meu lado aguarda? Não sei. Olho no homem sentado a meu lado. Vestido com um casaco de malha igual ao do primeiro homem sentado no palco. Espreito e verifico que a ponta direita do casaco de malha do homem sentado a meu lado pende da mesma forma que o casaco de malha do primeiro homem sentado no palco. Com a mesma leveza pende do corpo magro. Estranho a coincidência. Procuro ver quem se senta além do homem sentado a meu lado. Dificilmente enxergo um outro homem com uma camisola de lã igual à do segundo homem sentado no palco. Tento ver como se encontra a gola da camisola de lã azul do homem sentado ao lado do homem que se encontra sentado a meu lado. Sim, está desajeitadamente dobrada, enrolada à semelhança do segundo homem sentado no palco. Estranho. Mais uma coincidência. Penso que o anormal seria não estranhar. Aperceber-me de tudo isto e apenas descrevê-lo seria desconcertante. Mas não consigo deixar de estranhar. E mais estranho ainda , quando verifico que o homem sentado na fila oposta à minha possui um casaco de malha bege igual ao do primeiro homem sentado no palco. Com uma ponta que pende para fora da cadeira da mesma forma que o primeiro homem sentado do palco. Visualizo a ponta do casaco e tenho vontade de lhe tocar. De sentir a malha da ponta que pende do casaco do homem sentado na fila a meu lado. Ergo-me e devagarinho dou dois passos ao encontro do homem da fila a meu lado. Espero que ele me olhe. Mas o homem sentado na fila ao lado daquela onde eu estava sentada mantém o seu olhar firme no palco. Olhando os dois homens sentados lado a lado. Olhando na sua frente. Sem sequer se aperceber da minha presença. De um corpo, o meu, a seu lado. Baixo-me e de cócoras toco na ponta do casaco de lã bege do homem sentado de lado na minha frente. Sinto-lhe a maciez. As malhas. O cheiro da roupa de Inverno e do vento. Agarro na ponta do casaco do homem sentado e levantando-a coloco-a sobre o seu joelho.

Estou sentada no palco. Olho no publico sentado na minha frente. A minha cadeira range.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Água


Paula Rosa - Meta For

- Falta-me algo...
Não sei o que te diga. Silencio-me.

- Falta-me algo.
Interrogo-me.

- Falta algo...
Sim. Eu sei.

- Algo que...
Que não sabes. Que não sabemos. Saberá alguém? Esta insatisfação presa aos cabelos que despenteamos para sentirmos a vida. Como se a vida se pudesse desgrenhar e mover com o vento. Como se a velocidade fosse condição à vida. E o sentir tivesse de ser constante. Às pernas só é dada a condição de movimento. E do repouso tem-se medo.

- Sinto que...
O afecto nos faz falta. Mas nunca nos bastamos com ele. O amor nos preenche, mas deixa sempre espaço vazio. Os filhos crescem. Os pais morrem. Os amigos zangam-se e esmorecem. As fodas são somente fodas. E as namoradas perdem-se entre o trabalho e os copos.

- Há algo que...
... gostarias de fazer. Mas o quê? O que falta? Faz-se tudo sem saber. Faz-se nada. Inicia-se sem dúvidas e no final em gargalhada a questão o que estou eu a fazer? Bebe-se um copo. Embebeda-se a mente. Fuma-se drogas, embala-se o corpo. Mas que raio...

- Falta-me algo.
Procura deus. Deus é pequeno. Deus não enche quem não o quer. Aliena-te como te for possível. Eu... eu não te sei responder.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Lavanda


Veloso - Tentação da carne

Eu conto-te. Conto para que saibas. Ainda que nada haja a conhecer. Uma circunferência. Um ciclo iniciado após uma volta. Conto-te. Existia uma insatisfação que lhe corroía os ossos. O abrir a porta de madeira da casa. Aquela mancha junto à fechadura da porta. Esperava-o. Confrontava-o. Com a noite. A noite passada dentro das paredes encerradas por aquela porta de madeira. Um beijo nos lábios. Um sorriso. Ou um caminhar para lá. Para longe do corpo dele. Distraidamente sempre para longe. Porque há sempre coisas a fazer. A ajeitar. A arrumar. A delinear. A projectar. Dois corpos que se movimentam num mesmo espaço. Com pequenos. Leves. Breves toques. Uma mesa e quatro cadeiras. Duas cadeiras ocupadas. E o silêncio. O silêncio mesmo quando não existia silêncio. Um olhar na toalha branca. Imaculada porque se quer imaculada. Diz. Sim. Diz-me como te correu o dia. Quem? Sim. Fala-me do teu dia. O meu? O meu... Sorrisos. Breves. Um beijo de fugida. A loiça. O sofá. Pousa a cabeça no seu ombro. Mais um beijo. E dois corpos sentados lado a lado. Ele loiro. Ela morena. Distantes. Distantes pelo enjoo. Pelos dias e dias de toques. Pelos dias e dias de proximidade. Poderiam ser interrompidos com choros. E bebés. Mas não. Apenas o silêncio do noticiário da televisão. E um nevoeiro pairando sobre o que já não era.

Rompe-se a corrente.

Ela era vento. Era chuva. Era Inverno. Era fogo. Era mar. Ela era riso. E sorriso. E viver. Era ruiva. E morena. Era o sofá desarrumado. E o pavimento sujo. Era migalhas na cama. E manhãs atribuladas. Era fugida. E desassossego. Era vertigem. E suor. Era televisão desligada. Era música em silêncio. Um gemido. Um olhar. A cumplicidade. Era ele. E era ela. Eram outros. Que se passeavam por ela. Era ciúme. Era medo. Prazer. E prazer. E amor descomplicado. E amor porque te quero. Amor porque sim. E sim. É assim. Amo-te. Amo-te. É desejo. Que não quero perder. E saturar.

Corrente inexistente.

Hoje ele senta-se no sofá. Os dois loiros. Em frente ao noticiário. De cabeça contra o ombro. E um sorriso. No sofá branco. Depois do jantar na mesa com toalha vermelha. Imaculada. Depois do beijo de fugida. E dos dias. Do Conta-me como foi. Sim? O meu? Nada de especial. Quem? Ah ela. Ah ele. Sim. Sim. Temos de ir. E fazer. Sim, tens razão. Tenho sono, vou deitar-me. Tudo bem. Não te preocupes. Ele chora. Eu vou lá. Sim. E no rosto a segurança de sabermos qual a nossa infelicidade. E nas mãos as referências apreendidas e aprendidas. No cabelo o sabor de quem provou. Na boca a esperança de um dia voltar a ser. Um retorno.

Nada. Nada. Nada mais a acrescentar. Conto-te. Contei-te. Parte.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

sopas dispersas


Charles Gatewood

A minha pele está transparente. Aguarda. Aguarda-te. Dos meus intestinos o mundo quer expulsar-me. Eu comigo dentro. Corro. Sinto o odor do teu cheiro. Intenso. Dou-te uma mão e aguardo que a música comece. Os meus pés dançam parados. E toda a música é absorvida pelo meu corpo. Danço-te. Na sombra. O meu apetite não matarás. Ele vive do alimento e nunca através dele surgirá o seu desaparecimento. Sou uma marioneta. Nas mãos de quem me quiser. Nas tuas. Ou nas dele. Movimentem. Movimentem-me. Da minha boca apenas silêncio e este sorriso. Subo ao palco empurrada por ti. Sento-me. Deito-me e durmo. Empurras-me com um pé. Rio. Poderia gritar mas aprendi a ser domada. E dominada. E submetida. E imobilizada. Revolve-me a pele. E a carne. O restante revolvo eu. A essência. Que te dou e retiro.

Ela quer que eu aponte. Baixo o dedo. Baixo a mão. Baixo o braço. Acontece. Digo-lhe. Acontece. Ela implora-me para que aponte. Baixo o dedo. Baixo a mão. Baixo o braço. Roga para que uma palavra seja dita. Expulsemos os nossos demónios através dos outros. Através dos demónios dos outros. Olho-a. Mas a minha natureza é de entendimento. Penso em contar-lhe que um dia abandonei tudo. Retirei-me da vida e dormi. A minha pele virou cinzenta e as minhas ancas largas encolheram. Os espelhos deixaram de me reflectir e não havia como chorar. Contar-lhe que o meu pai delira e se ira contra mim.

Vou despir-me. E vestir-me. Tenho vontade de ser actriz. Enfiar o corpo num vestido coleante preto e escorregadio. Enfiar nos pés os sapatos pretos mais altos que tenho. Ser grande em altura. Prender os seios um contra o outro de forma a que visualize o rego olhando na frente. Colar o cabelo à cabeça e colocar a peruca morena comprida. Sombrear os olhos de negro e prata. Esticar as pestanas ao infinito. Dar cor vermelha às faces. Matar-te porque me desejas e eu nada posso fazer a não ser esvair-te em sangue e suor.

Existe uma tesão em mim. Esta tesão que me faz andar. E caminhar. E deitar-me numa marquesa. Existe tesão em mim. Sentes? Sinto.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Chuva de lava


Ludmila - Couple

A porta de vidro estava fechada. Premiu o botão da campainha. Os cabelos caiam sobre os olhos dificultando a visão mas teve preguiça de os retirar. Click.
- Quem é?
- Sou a 77479077. Estive cá o mês passado. Simulei um enforca-mento. Agora queria...
- Só um momento.
A porta divide-se em duas que recolhem deslizando para os lados. Entra. A sala de cor metálica prata está escura e dificilmente vê o balcão onde anteriormente fora atendida. Era uma tarde de Sexta. Saíra do trabalho mais cedo. Faltara novamente a corrente eléctrica. Um novo atentado. Mais de cem feridos. Estilhaçados pelas pedras do buraco que os protegia.
A sala ilumina-se e uma mulher de casaco de fazenda castanho entra na sala por uma porta atrás do balcão.
- Hoje fechámos mais cedo. As festas começam amanhã...
- Sim...
- ... Não é época para se querer morrer. Todos estão eufóricos - diz sorrindo.
- Não será, responde torcendo os dedos na camisa.
- Mas que pretende? Não tenho ninguém neste momento que possa atendê-la.
Hesita. Não é época para se querer morrer. Existe outra mais indicada?
- Eu pretendo simular o choque frontal...
- Não pode voltar para a semana?
- ... mas não o condicionado. Quero um real.
- Como real?
- Não pretendo o vosso cenário. A garagem. O condicionamento. A experiência em ambiente fechado. Quero lá fora. Na estrada.
- Mas sabe que é ilegal?
- Sei. Mas disseram-me...
- O que lhe disseram? Aqui só fazemos simulações legais. Estamos registados e certificados.
- Sim... mas pensei que pudessem. Só esta vez.
- Mas... já viu o nosso catálogo?
- Sim. Já sou vossa cliente há uns meses. Como lhe disse o mês passado simulei o enforcamento...
- E não gostou?
- Gostei. Muito, mesmo. Mas quero... preciso... sinto que... pensei em fazer algo diferente.
- Mas tem outras... experiências. Como lhe disse o nosso...
- Eu sei. Já simulei afogamento... a pira... a tortura de Santa Ágata, a de Santa Luzia, e ainda que através de uma outra agência... a overdose e o ataque cardíaco... tenho gostado muito de todos os simulacros, mas ouvi falar no choque frontal real e senti-me seduzida.
- Olhe. Peço-lhe. Volte para a semana. Falaremos melhor e de certeza que conseguiremos arranjar-lhe uma experiência de morte que a agrade. Certo?
- Certo...

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Casablanca


Albano Ruela - Ente

O enterrador estava pronto. Tinha escolhido um local em que sabia que dificilmente seria incomodada. A maioria dos que utilizavam o processo solitário fazia-o em locais bonitos. Praias, montes verdejantes, pequenos paraísos de cor e luz. Não uma fábrica velha junto a uma pedreira abandonada onde imperavam os cinzas e a rocha nua espreitava em tons escuros num monte dilacerado a picaretas. Não tomaria o comprimido. Tinha-se decidido a sentir. Sempre a sentir. O solitário não lhe seria indolor mas sentiria algo. E o último pensamento seria dele. A ele dirigido. Quando a terra batesse sobre ela fortemente. Quando o seu corpo recebesse o impacto daqueles quilos de terra seria nele que pensaria. Nele que não a amara. Nele que não a quisera. Nem a ela, nem ao seu amor. Sufocaria lentamente? Não sabia. Não procurara informar-se. Chamar-lhe-iam de doida caso explicasse o que pretendia fazer. Não existia relatos de quem não tivesse tomado o comprimido. Não existiriam relatos de nada. Quem experimentava o enterrador não ficava para relatar. Daí não se preocupar em saber como se programava o enterrador. Seria manualmente que o faria. Bastava-lhe puxar a alavanca com o cordel que trouxera para o propósito. Cavar um buraco onde deitar o corpo. Colocar a terra do buraco sobre a plataforma do enterrador. Deitar-se no buraco. Concentrar-se no céu escuro. Puxar o cordel. E cairia a noite. Para sempre. Sempre. Questionava-se. Existiria espaço à tosse? A convulsões? Ser enterrada viva. Sentir-se a morrer. A sufocar. Espaço a gritos? A arrependimento? Desde que os pais lhe tinham morrido não existia motivo para se deixar ficar. Os entusiasmos não morriam. Apenas tinham deixado de se fazer sentir. Era um zombie. E na cabeça apenas uma morada. A morada dele. Dele. Seguira-o. Visualizara-o de longe. Sonhara em que ele voltaria e lhe diria que a amava. Que a queria. Que não conseguia viver mais sem ela. Que a desejava como ela a ele. Muito. Tanto. Tanto... uma história de amor de tirar o fôlego. De romper com o mundo e tudo o que nele conste e se conheça. Querera tanto que ele fosse louco por ela. Que obcecasse por ela. Que a quisesse acima de tudo. De qualquer forma de ser. De tudo e de todos. Um amor de enjoar. De novela. De conto e de história. Mas não. O enterrador estava ali. Pronto para carregar com a terra. A terra a depositar no buraco. A retornar ao local de origem. Cavar a própria sepultura. Morrer e ser enterrado onde queremos. Um direito difícil de adquirir mas conseguido ao final de muitos anos de lutas. E a ela a quem nunca interessaram as lutas, usufruía agora desse direito. Punha-lo em prática. Começa a cavar. O sol esconde-se por detrás do monte violado. As mãos pequenas posicionam-se ridiculamente sobre a pá. Não tem pressa. Poderá descansar sempre que queira. Não há mais pressa. Após a decisão tudo é pacífico. Existe uma serenidade no corpo que há muito não sente. Deixou de transpirar de ansiedade. Deixou de se interrogar o que fazer. Simples. Paz. Não há orgasmo que lhe valha. Nem coito que deseje. Nada. Não há fome. Não há sede. Nada. Vácuo. Um negro de luz. Retoma o trabalho. O processo é lento. Ainda que tenha escolhido o melhor local este encontra-se repleto de pequenas pedras. Restos da mãe rocha. Anoitece. Decide parar. Não sopra uma brisa. O vento nega-se a fazer sentir. Nada se faz sentir. Nem o luar. Somente as estrelas presenciam aquele corpo coberto de pó. Deita-se sobre o pequeno monte de terra já retirado. Sobre a plataforma do enterrador. Dormir sobre a própria campa. Sobre o coveiro da campa. Adormece. Em sonhos ele. Sempre ele. Maldito. Amo-te. Amo-te. Porque não me amas? Porque não me amas se eu amo-te tanto? Deverias amar-me. Deverias achar-me especial. Deverias sentir-te privilegiado. Deverias... Porque não me amas se eu te quis amar. E consegui. Amo-te. Porque não me amas se me mostrei. E revelei. E... amo-te. Vomito-me de amor por ti. Sente-me. Amanhece. Lentamente. Tão lentamente que parecem dias. Dias sem noites. Somente um sol nascente. Eterno. Ali. Pairando baixo no horizonte. Agarra na pá e prossegue. Que horas serão? Não sabe. Com ela apenas o seu corpo e o vestido imundo que traz colado aos seios e às pernas. Não escreveu nenhuma carta de despedida. Não avisou ninguém. Será um solitário não registado. Mais uns dos que agora começam a serem descobertos em grande número. Mais um que calou o destino. Mais um. O solo ergue-se. Finalmente ergue-se e queima. A pele morena tinje-se de suor. Termina o buraco. Ou pensa que o termina até se deitar nele e constar que não existe espaço para o corpo. Só de lado. Pensa em retomar. Ri-se. E porque tem de ser de costas? Porque não podemos enterrar os mortos de lado? Porque não pode ser ela enterrada de lado? Que de lado fique. É importante? Afinal... é especial. Ri-se. A gargalhada ecoa na parede da montanha dilacerada. Sente-se feliz. Ou o mais próximo que conhece da felicidade nos últimos tempos. Ata o cordão à alavanca. Entra no buraco e deita-se. Magoa-se no braço esquerdo que bate numa pedra. Não faz mal. Que importância tem a dor naquele momento? Não pensa. Não pondera. Nada a pensar. Não existe espaço para um último momento. Para uma última reflexão. Para um momento de silêncio. Para compadecimento de si mesma. Puxa o cordão. A plataforma ergue-se. Devagar. Mais lentamente do que previra. Eleva-se a cerca de um metro e meio, gira sobre si mesma e a terra é atirada com força sobre o buraco. As medições foram bem feitas. Ainda que a olho. Ainda que sem grande método. Sente o impacto da terra sobre o corpo. O cheiro do pó. O escuro. Estranhamente não se arrepia. Não se engasga. Não sufoca. Somente escuro. Um escuro terrível. Um escuro e um cheiro a terra intensos. Estranho. Não morre. Não sente a vida a esvair-se. Não sente nada a não ser um imenso escuro e um imenso cheiro a terra. Aguarda. Quanto tempo passa? Quanto? Já deveria ter sufocado. O corpo não sente o peso da terra. Estranho. Sente-se envolvida. Quase que poderia afirmar, deliciosamente envolvida. Nada. Aguarda. Ri-se. Sim. Consegue rir-se. Vem-lhe à mente a imagem do seu egocentrismo. Especial. O querer ser especial. Para alguém. Para ele. Pois seja. É-o. Não morre. Porque não morre? Grita. Quer morrer. Porque não morre? Quer sufocar. Não há direito. Não é justo. Ela só queria calar a mente. Só se queria calar. Só queria morrer sentindo. Sente. Mas não morre. Apenas o escuro e o cheiro forte a terra lhe fazem companhia. Nem a pedra sob o braço esquerdo faz notar a sua presença.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Branca


Keiko Iwamuro - Gold Fish Cow and Egg

Molhei o cabelo. Com gel puxei-o para trás. Para que me vejas o olhar. Um olhar de testa e queixo. De nudez facial. De risco grosso preto nos olhos. De olheiras cinzas. Vesti-me como me disseste. Como me pediste. Com murmúrios. Como pedes. Sem jeitos nem considerações. Com esse teu egoísmo de entranhas em risos estridentes. Não existia esperança. E a vontade era de não seguir. De me deixar estar sentada. De te olhar e desprezar. De te gozar. Porque podes ser desprezível. E estranhamente tentador. Visceralmente ser pensante de olhar escuro e profundo. Em mim. Agora voas. Em direcção oposta a mim e eu ainda sinto o teu cheiro e a tua saliva. O vómito provocado e a urina no sofá são as lembranças que me deixaste. Porque sem que o saibas é a tua intimidade que procuras em mim. Porque existe magia em nos degradarmos. És batida forte. E de estar que me transcende. Em comum temos este sermos nada em querermos sentir tudo. Ressaco pelos buracos que ficaram por encher. E da boca saltam ardores de estômago. O meu desejo sobe-me via intestinos. Um dia cago sobre ti. Para que me devores. Não chorarás mais a perca da mãe. Serás impala na tua África. Espreitas-me e eu enlouqueço-te. Em esticões de pescoço. Abanares de cabeça. É. É. Posso ser irreal. Ou surreal se fechares os olhos e os semi-abrires. Viro verde e roxo. Pinto-me de cores e cheiros. Abro-me e estico-me. Rebento em convulsões de saliva, urina, vómitos e fezes. Dou-te novas paletas. Esventra-te. Sei que não acreditas. Nem mesmo naquele momento sou real. Dispo-me do papel e mantenho os sapatos que me elevam acima de ti. Onde estás? Vieste tarde. Culpo-te porque vieste tarde e agora estamos sem tempo. Limpei a pele já sem ti. Lavei os pecados que não sinto. O silêncio era esmagador. As tarefas automaticamente engolidas em névoa. Que silêncio aterrador. Intenso. Um buraco. Em mim. Foda-se. Digo foda-se. Foda-se.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Bomba


Mário João Alves Lino

Olha querida, olha lá para fora. O sol nasce sobre todo o nosso horizonte. Nasce para ti. Nasce porque tem de te iluminar. A ti a esses teus caracóis loiros. Olha querida, olha. Olha e devora mais este bife a nadar em gordura. Olha e come. Quero-te monstro. Quero-te enorme. Quero-te imóvel. Sem conseguir andar. Sem estrutura para aguentar o teu peso. Dependente de mim. Como querida, come. Come o que te dou. Tudo o que te dou. O meu afecto em forma de batatas fritas. O meu amor em pudins de leite condensado. O meu carinho em bacon estorricado. Come meu amor. Come. Quero-te grande. Grande como minha mãe. Grande como a deusa mãe dos homens. Grande. De seios imensos onde me perco. Que tento agarrar e se escapam entre os dedos. De mamilos ovo estrelado. De refegos imensos. Descai sobre essa cama. Posiciona-te para os próximos anos em que tratarei de ti. Só precisarás de mim. A mim que te alimenta. E te limpa. E te consola. E te ama. Mas come querida. Come. De forma a que as tuas pernas não dobrem. Os teus braços se afastem do corpo e eu me perca nesse amontoado de carne e banha. Porque te adoro. Porque te quero minha e somente minha. Fotografo-te querida. Memorizo para que possamos ver e rever. O último dia em que andaste. O primeiro dia em que te limpei o rabo. Come minha querida, come. Quero-te dependente. Quero-te minha. A minha montanha. Onde me perco. Onde me perder. Tratarei de ti. Não temas. Amo-te. Desejo-te. Um desejo insaciável de grandeza. De pregas. Pregas que toco e revolvo. Que endireito e lavo. Afastar com as duas mãos uma nádega para que te limpe. Quero ter de procurar em ti o buraco da cona. Ter que me afundar nesse teu corpo. E revolver. Nadar. Em busca do paraíso perdido. Em busca das origens. De onde saí. Por onde entrei um dia em força. Por onde quero entrar para me esconder. És minha. Serás cada vez mais minha. Caloricamente amo-te. Amo-te. Tanto, que não precisarás de nada. Somente de mim. O filho pai. Na saúde e na doença. Na cama. Nessa cama de onde não irás mais levantar. Porque não necessitas. Porque o mundo se deita a teu lado. Come, meu amor. Come. Engole o meu mundo. E o teu. Consome-me. Consumo-te. Come, minha querida. Come. Devora. Mulher gigante. A minha. Mulher mãe. Minha mãe terra.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

botas da tropa


Albano Ruela - Target

Aldeã. Podes chamar-me de aldeã. Ainda que calce estas botas pretas. Ainda que vista estas calças. E esta t-shirt. Podes chamar-me de aldeã. O meu cabelo ainda tem os jeitos do lenço que tirei da cabeça. Ontem. E a minha pele ainda cheira a ervas e trigo. Da minha boca ainda vem o cheiro pálido e agreste do leite acabado de ordenhar. Os meus braços mostram as marcas do sol nos pomares. E as sardas do peito tem a cor do vento nas videiras. Aldeã. Chama-me de aldeã. Sente a aldeã em mim. A que não tem medo de insectos, bichos rastejantes, aranhas e ratos. A que come fruta com casca e ouve rock progressivo. Industrial em cearas de milho. E a ford azul bebé em curvas de campos em pousio era uma vertigem. O fumo. O Pedro cigano que me dava sacos de erva gargalhada. E os charutos cubanos fumados com palitos debaixo de figueiras roxas. Sente os caracóis que rastejam na minha cabeça. E o arranhar das patas dos escaravelhos a descer pelas pernas. Tenho carraças atrás dos joelhos e dou-lhes de comer. Nos bailes deixo-me levar pela música e como amêijoas. Nos pés as botas. Nas pernas nuas um tecido esvoaçante chamado de saia. O amor pelos vestidos. E pelo vento. Nas ancas largas de quem podia parir. No corpo de mãe. Ogiva em infinito. Aprendi a lançar o pião e a magoar a cabeça dos dedos com os abafadores. Sim. Sou esta. Sou também esta. Chama-me de aldeã. A dos beijos nos pombais abandonados. E dos dias da mãe com flores roubadas num jardim alheio. Da lama nas botas e das amoras nos bolsos. Suja. Porca. Molhada. A trovoada no corpo. A tempestade que despenteia. Uma ilusão estas estantes. Eu sou aldeã. Gosto andar descalça. De calejar os calcanhares na gravilha e nas pedras. De ter o cheiro do jasmim nos dedos. Do queijo seco ao sol. E do barulho da passarada interrompido pelas motorizadas. Meto ervas na boca. E chupo. Sugo. Contraio os músculos contra o tronco de árvore abatida. Salto desajeitadamente a vedação do vizinho e oiço os tiros. Roubo morangos. E couves por divertimento. Não te iludas com o ipod. O meu sotaque não engana. Sou aldeã. Li fotonovelas italianas com legendas em brasileiro. E banda desenhada pornográfica encostada à adega onde me deito. Os meus dentes escurecem com o vinho. E do cimo do monte grito ao eco. Sou Pã sem flauta. Sou aldeã. Chama-me de aldeã.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

bolotas alentejanas


Frantisek Dritikol - Dancers


É uma nudez. Uma nudez. Uma insatisfação à qual sorrio. Não existe cura mas trato-me. As unhas crescem-me. Não as como. Estou em dieta de unhas. Estou em dieta de homens. Estou em dieta. Mentira. Há um silêncio lá fora que entra pela janela. Apodera-se de mim. Eu que danço aqui sozinha. Uma valsa. Uma valsa de silêncio em mim. Vivo esperando um dia. Ansiando um dia. De partida. De ida. De ir. E ir. E estar lá. Lá onde quero estar. Na areia entre os dedos do pés. No sol em mim. No meu corpo largo. Enorme. O meu. O que me pede. Pede-me calor. Sol. Pede para sentir dedos diferentes. Dedos em forma de raios de luz.

Amo-te apenas porque não te pude amar.

Visto-me de preto. Mas na corda tenho o vestido cinzento. E o vermelho. E o azul. Prontos. Prontos. Para entrarem pela cabeça e me cobrirem o corpo. E rio-me. Rio-me de mim. Sou uma desculpa esfarrapada. E faço de ti uma outra. No querer. No querer sentir faço de ti um deus na terra. Tu que és ordinário. Eu que sou vulgar. Mas assim perco-me. É mais fácil. Saber-me perdida é procurar. É tentar encontrar. A mim. A ti que já deixei no caminho. As canas são altas. E eu sou pequena. Sempre fui. Sou vigarista. Vendi-te um sonho e comprei gato por lebre.

O meu filho. Lírico. Da boca palavras bonitas. Daquelas que só leio quando abro o dicionário. Daquelas que oiço de dez em dez anos. Lírico. A ervilha dos monstros negros e das fadas loiras. Das relações caladas. E mal resolvidas. Dos ressentimentos porque são melhores que nada. Dos silêncios porque temos de alimentar as emoções em nós. Dedilha. O meu filho dedilha em mim. E os olhos são profundos. De homem. Se me afasto vira o menino que eu pari. Que saiu de entre pernas. De barba. Já com barba. Ruiva. Brincamos. Sim. Empresto-te as minhas pernas. E a boca. Brinca. Brinca. E chama a ti todo este brinquedo grande. Como se sempre tivesse sido teu. Estranho a virilidade. A do riso. A do absurdo. A mim chamaram-me nomes. Uma gargalhada.

Existem duas almofadas pretas que têm de mudar de posição. Porque uma loira de cabelo escorrido, oleoso, nauseabundo, assim quer. Que seja. Que seja como dizes loira com cabeça de frigideira.

Há sangue entre as minhas pernas. Desenho na face pinturas. Com sangue. Que seca. E parte. E estilhaça. E na música procuro esventrar a carne. Alface, delícias do mar, queijo fresco. Queres almoçar comigo hoje?

sábado, 5 de setembro de 2009

cristina


Karim Ramzi

Recomecemos... parece que um gato miou aqui ao lado. E estranho é que tenho ouvido guinchos e sons de estaladas. Aqui na rua. Mas a tua voz põe-me assim. Com vontade de pele na pele. E de dedilhar nesses teus mamilos. Pode ser perigoso mas temos as máscaras de gás. Falei-te na cozinheira loira. Na do cu de preta. A porca. Porca porque se recusava a tomar banho. E no sucesso que ela tinha na rua. Todos os homens se voltavam. Para lhe olhar no cu. Nas nádegas firmes dentro das calças de ganga. Vejo-a. Cantarolando as canções da Romana. Eu? Eu lavava os frascos e guardava-os vazios. Fiz uma colecção. Estranha. Embalagens de vidro. De plástico. Sem etiquetas. De perfume. De patés. De cremes. De amaciadores. Ainda hoje me pergunto porque guardava eu tanto frasco... Como as matrículas. Essa contei ao bicho. E num outro tempo a casa-de-banho era branca imaculada. Um dia perdi-me na Buraca. No bairro clandestino de tijolos à vista. No escuro. No escuro de portadas sem portas. No entrar e sair dali. Entrámos num bar. Escuro. Tudo era escuro. Numa Jamaica perdida nos subúrbios. Nas rastas e dentes brancos. Passei a noite a dançar com um homem de calças brancas. A sentir-lhe o alto entre as pernas. Grande. Imagino que grosso. Como me esfreguei... E arfei. A cozinheira era futuro. Um branco de cabelo encrespado. De casaco branco a condizer com as calças. E camisa aberta. Lembras? Diz-me qual a diferença entre dating e hang on. Dizes? Eu gosto mais da palavra hang on. Dá a sensação de cabide. De algo pendurado. Que podemos despir. Descolar. Mandar fora. Um cabide para pendurar. Enquanto durar o dating. Nunca gostei de datas. E a mania dos homens quererem estar com data marcada. Eu que sou de apetites. Marcar o quê? Onde? Como? Hoje esqueci-me de beber água. Bebo vinho. Bebo. Bebo. Bebo todo o vinho do mundo. E não me chega. Estão a plantar mais videiras para me fazer mais vinho. Como o dinheiro que está a ser impresso. E não me chega. Vamos pensar positivo. Chega e sobra. Sobra sempre. Tira-me essa música. Quantas vezes já a ouviste? Que chata o raio da mulher. O que pensarão os vizinhos? Ui. Os vizinhos. Não quero imaginar. Vêem-me a sair para a missa todos os dias. Ouvem-me a rezar em casa. As minhas preces são sempre escutadas. Tenho dificuldade em sussurrar. Mas não grito. Acho... não me oiço. Estou compenetrada. Gostava de ter um smoking. E uma gravata. Fascinam-me vestimentas dessas. Depois penteava o cabelo com brilhantina e punha um cigarro nos lábios pintados de vermelhão. Havia de ficar bonita. A Piggy armada em Cocas. Não tens sono? Não. Que porra. Sim. Apetecia-te um corpo. A mim apetecia-me sol na venta. Ele é perigoso. Sim. Mas está longe. Desliguei. Estás contente? Há mulheres que engordam do ar que respiram. E dos bolos que comem ao lanche. Inaceitável. Vamos encher este espaço branco de letras. E depois podemos dormir. Ele disse que telefonava. Sim. Também as outras duas centenas. Ri-te. Sim. Que grande vaca tu me saíste. As vacas são porreiras. E dão leite. Desintoxica. Permite-nos continuar a acender cigarros. Um concurso para ver quem consegue fumar mais cigarros em uma hora. Ganhavas. Talvez. O Mário seria adversário. E o tipo das Finanças. Eu tenho uma imagem romântica do fumo. Passar a ferro a fumar. Deixar cair a cinza na roupa e passar o ferro por cima. Planchar. Plancha-me. Expressão deliciosa. Plancha-me contra a parede. Plancha-me à parede. Com força. Voltou a miar. Ouves? São os homens do lixo. Larga as unhas. Gostava de reler a história do macaco e da viola. Vai dormir. Vou. Vou dormir. Vens comigo? Só se me beijares. E me abraçares... Desculpa. Esqueci-me que não tens braços.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Onanismo


Willian Ropp - Silence

Uma caminhada. Um processo. Lento. Devagar. Molengo. Sem vontade. A medo. Angustiante. Por vezes. Às vezes. Nas vezes em que sentando-me na ponta da cadeira olho em volta e pondero o que fazer. Onde ir. Ao que me dedicar. Eu, a dos projectos. E dos objectivos. E dos quereres. E das vontades. E dos desejos. E do ir. E do vai. Férias. Vou tirar férias. De mim. De tudo o que me rodeia. Essencialmente de uma parte de mim.

A irritabilidade. A incompreensão. A intolerância. Em mim. Agora. Nas bainhas por fazer. Nos cadernos por enviar. Nos desperdícios. Nos meus desperdícios. De carne. De suor. Não. Não há lágrimas. Não há lágrimas que resistam a esta violência. A este empastado de alienação. A esta intensidade e medo de morrer. De não sentir. De não ser alguém. De ser o que sou.

O telefone tocou. Não atendi. Não quis atender. Duas vezes. Não atendi. Os telefones já não trazem toques banais. Convencionais. Toques de telefone. Trazem tudo menos toques de telefone. Vou fazendo. Fiz muito. Ontem. Antes de ontem não. Foi cansaço. Um sono. Uma vontade de matar o corpo. Ontem. Hoje não. Uma decisão. Sem coragem.

É mentira. É tudo mentira. Somos sempre sós. Momentaneamente partilhamos. Mas o fundo descobre-se. E temos novamente de nadar. De voltar à superfície. Ou não. Matamo-nos. O buço cresce-me à velocidade das unhas. O verniz estala-me. Os olhos murcham. A barriga incha. Vou esventrar-me em sangue. Sentir os pelos encravados. Cheirar o meu suor. Rir-me das minhas fezes cor de terra argilosa. A minha intimidade é além. Além deste corpo. Que já dei. Entreguei. Violentei. Vendi. Enganei. Saciei. Comi. Devorei. Torturei. Anulei. Em mim. Eu. Em mim.

Alimento com sensações. Só com estas e através destas voltei. Só assim. O equilíbrio nunca me impulsionou a criar. A escrever sobre paredes. E ervas daninhas. Começo a gostar de mim. Não morrerei sem tentar. Eu urino na frente de todos. Um acto. Comer. Dormir. Roncar. Urinar. Ronco. Ronco. Acordo. Tenho tudo aquilo que se esconde. Cuecas sujas ao final do dia. Gotas de sangue. Pelos. Baba na almofada. Borbulhas e pontos negros. Cu sujo. Cheiros intensos. Suor. Escarros verdes. Unhas encravadas. Buço. Impurezas. Herpes labial. Tropeço no caminho. Em preguiça. Em tristeza. Em frustração. Em não ser especial. Apenas mais uma que aqui anda. Mais uma que aqui tenta ser alguém.

Eu podia dar a mão a alguém. Mas sou arrogante. Demasiado arrogante. Na impossibilidade tento bastar-me. E às vezes sou pedra. E cega. Às vezes sou um umbigo. Redondo. Como um poço. O poço onde estou. O poço que um dia em repetição cavei. E é nas palavras, sempre nas palavras que sublimo tudo o que é primordial. A angústia e a culpa. Sou filha de uma procura que não acaba. Que não tem fim. Caverna. Túnel.

Este fim-de-semana vamos fazer um piquenique. Tenho saudades tuas. Fernando.

sábado, 29 de agosto de 2009

Eu não sou tu


Daniel Weinstock - mujer

Os sapatos deixei-os onde viste. Estão ali. Junto ao sofá. Há... há quantos dias? Quantos? Não conto. Não conto. Só conto histórias. E estórias. E conto contos. Contos de fodas. Sim fodas. De entrar e sair. De conas. De cus. De caralhos a apontar ao céu. Baralhado? Não? Óptimo. Agora vou estender roupa.

Vou entrar no cofre e sentar-me no sofá. Contigo. No sofá rosa. Ou no vermelho. Vou beijar-te e apalpar-te os mamilos que não tens. Vou esticar-te as peles. Pronto. Eu cedo. Eu cedo. Porcaria de água que me trouxeste. Sabe a cadáveres. Sim, sabe a mortos. Os mortos tem este sabor. Já sodomizei uns quantos. Rio-me. Pecadora.

Não sei se tenho saudades tuas se da forma como era quando te amava. Do melhor que transparecia em mim. Do que fazias despoletar em mim. Mas sinto-te a falta. Ontem chorei. Não por ti. Não por mim. Porque... porque não gosto de perder. E perdi. Perdi porque afinal sou ainda mais pequena do que julgava. Não consigo dar o que queres. Não consigo. Seria violentar-me. E eu não consigo violentar-me assim. Só bêbada. E o álcool deixou de fazer efeito em mim. Depois do etílico que me ardeu no estômago. B. De bicho. B. De bicho homem. B. B.

O sol na minha pele tem sido uma carícia. O sol virou meu amante. É ele quem me dá prazer. Me beija o pescoço. Os lábios. Me aquece. Se faz sentir. O sol tem sido meu amante. O meu melhor amante. Nestes dias de sol sinto-me preenchida. Por ele. Quando o sinto. Quando saio para comprar alfaces. E queijo fresco. Sinto-o nas costas quando fecho a porta. E sei que lhe sou única. Os que se sentam na esplanada em frente não o sentem como eu sinto. Ainda que debaixo do mesmo. Ainda que ali durante horas. Os meus minutos de caminhar são nossos. Fode-os. Ama-me. Fodo com outros mas amo-te a ti sol. Eu que não consigo foder com quem amo.

Chega de palavrões. De obscenidades. De sexo. Falemos em afecto. Comecemos nos nossos pais. As referências. E ele ali ficou. A discursar. Eu deslizei e fugi por baixo da mesa. Tinha uma toalha azulão. Gatinhei e ainda tropecei em dedos enfiados em tiras bronze. No bar comi o empregado. À bruta. Comi-o. Engoli-o. Só deixei uma unha apodrecida sobre o balcão. Agora estou aqui cheia e não consigo arrotar. Mas os barcos passam no rio e eu começo a sentir-me feliz. Afinal todos eles deixam rasto.

Fumas?

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Playboy e o tio da Paula


Albano Ruela Pinho - The Bride


Sim. Sim. Sim. Sim. É o que queres que diga? Pois digo. Digo. Digo sim. Sim. Sim. É isso tudo. Afinal somos todos tão competentes. Tão eficientes. Tão modernos. Tão humanos. Tão profissionais. Tão comoventes. E evidentes... E corremos. Como corremos. Para nada. Porque corremos? Porque comemos à pressa? Porquê? Para que o mundo funcione? Mas o mundo quer lá saber de nós. O mundo não precisa de nós pra funcionar. O mundo é o único ser auto-suficiente. Não precisa de vitaminas, nem proteínas. Não precisa de sapatos, nem de gel da barba. Não precisa da fotossíntese, nem de coitos. Ponto. Ponto. Ponto cruz. Ponto de arroz. E sushi com batatas cozidas. Corres. Corres porque queres aquelas colunas? Que desgaste. Que desperdício de energia. Sim eu sei. São as que queres. É o que queres. São as com que sempre sonhaste. Uma prioridade. Mas repara. Até as Miss Universo tem sonhos maiores. De paz. De felicidade. De vinde a mim as criancinhas... E não, não rias. Eu ando a correr para poder comprar um requeijão. Já tenho o doce de abóbora. Depois faço uma orgia. Embriago-me e tomo aspirinas. Vou fazer uma tatuagem. No braço. Ou nas costas. Na barriga da perna. No dedo grande do pé. Em qualquer lado. Preciso de marcar a pele. De sentir agulhas. De provocar sensações. Ando cansada. E hoje veio-me outra vez à mente aquelas olheiras profundas. Ter amor a um par de olheiras. E os orgasmos têm sabido a nada. Um soluço. Miséria... Já não as posso ouvir. Vomito-me com sandálias. E conversas de sandálias. Desejo o Inverno. Para que falem em botas. Em botas com botões. E cordões. E atilhos. E aplicações. E saltos altos. Ou rasos. Mas botas. Por favor. Imploro. Peço-vos. Rogo-vos. Falem em botas. Em botas... Olho neles e dou um par de estalos. Em mim. Depois existem as sopeiras. As belas e más das sopeiras. Ai. Ponho a mão na anca e desafio-as. Para uma sopa. Uma lavagem de loiça. Um jantar na ponte Vasco da Gama. As sopeirinhas pequeninas. Sem cabeça. No lugar uma boca. Para falar. Falar. Falar. Ouvirem-se. Ouvirem-se muito. E de lado uns olhinhos estrábicos. Que tudo vêem deturpado. Para invejar. Observar. Desdenhar e invejar. E existe ainda aquele que atrevidamente diz gostar do Budha Bar. A maravilha do Budha Bar. E como se escreve Budha Bar? Preguiça. E as músicas dos esquemas. Todos iguais. Acima. Abaixo. Abaixo. Acima. Que lindas. Que sensuais. Sensualmente iguais. Todas iguaizinhas. São irmãs gémeas. Há mulheres que são irmãs gémeas. A mãe quer que se vistam de igual. É a moda. E a oportunidade de abanarmos as ancas olhando na fotografia. Sorridentes. Sempre sorridentes. Alguém já se lembrou porque a beleza está associada a sorrisos? Porque carga de água temos de sorrir para a fotografia? Bem fazia a minha irmã. Chorava. Chorava. E eu tola. Sempre tola. Ria-me até às lágrimas. Bastava olhar nos dedos de pontas pretas do fotógrafo para me rir. Dos dois dedinhos dele. Porque me ria eu? Aproveitava. Aproveitava para me rir de todos. De mim. De ti. Dele. Dela. De nós. De todos. Tal como aproveito para chorar todos os males do mundo. Com um golpe. Com um pequeno golpe. Choro por ti. Por mim. Pela dor. E por ele. E por nós. Por todos. Cambada.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

foz


Donna Murty Todd


Sim, lembro. Era eu quem metia sempre as mãos no vomitado. Quem ficava na casa-de-banho a limpar os dejectos. A desentupir o lavatório. Quem revolvia o vomitado na água parada do lavatório. Era um nojo. No início. Coragem. Racionalizar. Podia até imaginar que eram pétalas de rosa boiando em perfume. Não sei. Mas sim era eu. Eu que nunca vomitava. Perdia os sentidos. Ou ia. Ia por aí. Dormir aqui ou ali. Partir para ver o mundo. Ver cidades. Conhecer gente. Metia as mãos na sangria. Revolvia a fruta. Despedaçava entre os dedos os gomos da laranja. No final restava-me o vomitado. E os beirais das portas da rua. Os nossos rabos já sabiam escorregar sozinhos. Uma rua com bêbados encostados a portas. A paredes. Que procurávamos nós? Não procurar. Adormecer?

Mascaro-me de velha ou de espanhola? Tenho os sapatos. Posso arranjar a cabeleira. Mascaro-me de bivalve. Abro-me e fecho-me. Abro-me e fecho-me. Apertadinha... O Natal está quase a terminar. O da campanha, pois do outro já só resta memória. A minha mãe costuma dizer Para a frente, filha. Para a frente. É mãe, para a frente. Para a frente. Afinal eu já tive dias de correr em corredores de mármore. E de fumar às escondidas. Sabes não sinto ciúmes. Quero-lhe bem. Nunca fui a última. E alguém é? O meu maior sonho foi o de ter à disposição todos os chocolates, rebuçados e pastilhas do mundo. Acordava e no mundo todos tinham desaparecido. Puf. Evaporavam-se. Restava eu e as minhas irmãs. Corríamos para o café da Paiva. Para a vitrina dos chocolates do café do Paiva. E ali ficavamos. Até à eternidade. Um nunca acabar de sonho e chocolates. Porque quando somos crianças não necessitamos de futuro, nem finais. A desembrulhar um a um. A abrir um a um. A comer todos. Todos os que pudesse. E quanto eu podia! O sonho nunca teve fim. Por vezes a minha mãe não se evaporava. Por culpa. Por culpa em fazê-la desaparecer. Não porque quisesse comer pescada cozida. A São já está grande e pode fritar batatas. Esses são de mel e eu não gosto. Prefiro estes de morango. E aqueles além da Regina.

- Oh mana... mana...
- Sim? Que queres?
- Abre-me a gaveta.
- Tabém...
- Bigado.


E lembro-me. Ainda me lembro. Não sei porque lembro, mas lembro. Do primeiro dia em que consegui sozinha. Sem ajuda. Sem pedir. Sem gritar. Sem chamar. Do primeiro dia em que ainda não chegando aos puxadores, com os dedos em garra, crispados na madeira escura, abrir a última das gavetas da cómoda. A minha gaveta. A junto ao chão. A mais baixa. E na parede um quadro a óleo de um palhaço. Nunca gostei dele. Algo falso... Sorria mas o olhar...

A minha mãe fazia bolas de berlim sem creme para levarmos para a praia. Há quanto tempo não como uma bola de berlim? Sim... Lamber os dedos no fim.

sábado, 22 de agosto de 2009

Ping Ping


Hiroshi Watanabe, Saori Suga - Matsuo Kabuki

Acerquei-me de ti. Rápido. Rápido como tudo em mim. Rápido. Assim. Quando olhaste, eu estava colada aos teus braços. Quando me procuraste, tiveste de baixar os olhos. Quando me ouviste a voz, eu tinha a minha mão no teu cabelo. Rápido. Rápido. A luz.

Eu dançava. Na música. Dançava. Abri a porta para que entrasse. Agarrei na minha mãe e disse-lhe que o meu amor por ela era de morte. Que morreria por ela. Agarrei-a e dançámos juntas. Disse-lhe que poderia ser lésbica. Por ela. Que me espelhava lésbica. Assim lésbica. Que ficavamos bem assim juntas. Dançando. Com os olhos das minhas irmãs em nós. Invejando. As nossas ancas. O nosso abraço. O teu cheiro. O cheiro a mãe. A perfume de velha. A roupa de Senhora. De Senhora de óculos e corpo mirrado. A Senhora de Infante Santo. Cheiro. Dançamos. Dançamos. Eu e a minha mãe. Eu. Ela.

O buraco comedor de homens à porta de minha casa fechou. Fecharam-no. Os homens de calças de ganga e coletes reflectores da câmara fecharam-no. As pás nas mãos calosas enluvadas encheram-no de terra suja de fezes de pombo. Depois um homem ajoelhou-se e mostrando o rego do cu calcetou o espaço outrora salivoso. O meu buraco. O nosso buraco. Que faremos agora? Que faremos? Agora todos vão subir as escadas. Agora os degraus parecerão palácio. Que faremos? E os vestidos ainda não me servem. Nem os sapatos. Desvio-os? Para Alfama. Ponho música mexicana e canto à varanda. Acendo a lanterna e aponto-a aos olhos. Pode ser que se assustem. Pode ser.

Eu entro. Entro e sempre duas mulheres aos beijos. Sempre. Diferentes. Mas sempre duas. Encostadas ao lavatório. Esfregando-se contra o lavatório. A música da noite provoca acções. E uma delas molhou-se numa mesa de vidro. Uma mesa no centro da pista. Com um homem de botas altas a despejar-lhe garrafas de vodka nas mamas. Eu saio. E na porta do lado é que eu entrava. Nessa é que eu me espelhava. E ainda que diga isto ao som de cumbias lerei ao som da música que ouvia quando te conheci. Porque tenho de me ler. Sempre. Antes. Sentir-me. Verificar se me sinto. Um bisonte. A pesar-me nas costas. A esfregar-se e eu a querer que escorregue.

Eu tinha uma cama de ferro. Guardava as pastilhas para o dia seguinte colando-as às grades da cama. Algumas colavam-se e não as conseguia tirar. Nem arrancando a tinta branca esmalte. Nem mordendo. Nada. Não mascava pastilha no dia seguinte. A geração dos números de circo para poder comer uma pastilha. E hoje tudo me é rápido. Encho a boca. E não tenho cama de ferro. Não guardo para outro dia. Carne.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

É o que é


Franko B

Entra. Entra. Sentas? Não. Não sentas. Eu sei que não sentas. Vens e tomas. Tomas e partes. De ténis calçados. De roupa despida. Entra. Senta. Pára no meu olhar. Com as mãos no meu colo. Mexe-me. Sorrio. Falas. Falas. Ai. Cala-te e fode-me.

Este sofá que me recebe é grande. Frente a vocês sinto-me confortável. Sinto que os dias podiam ser assim. Quentes. Com vento vindos de uma janela fechada. Com armários de cor com papeis que desconheço. Vocês dois aí em frente de mim. Em frente da mesa. Da secretária. Tem nome? Sei. Sei que tem. Mas eu esqueço-me. Eu só me lembro do meu nome. Qual? Aquele que me foi dado. De donzela. De virgem. Tenho saudades tuas. Vens a minha casa e jantamos fruta.

Não contes a ninguém. Não fales do que calo. Do que omito. Cala-te. A minha mãe tem a cabeça branca. E nas mãos a sabedoria de quem ensinou. No Maquiavel na mala. E nos comboios que partem. A minha mãe é diferente de mim. Tem cara de cavalo. É algarvia. Tem cabelo de arame. Ou tinha. Tinha. Tenho o cadeirão dela. Herdei o cadeirão dela. Aquele onde as cordas se prendem. As que estão no estendal. Vou dizer-lhe adeus um dia. Sabemo-lo. Nós que choramos. Um dia...

É de madrugada. É cedo. Uma cona fodida é maresia.

Eu demorei muito tempo a conseguir lançar o pião. E a assobiar com os dedos. Fui precoce com as letras. E os pintainhos. Mas vamos dar um outro ritmo. Vamos dar um ritmo cavalar de drogas. Das que não tomo. Foi um crime. Um crime ela deitada nas escadas. Morta. Aparentemente dormindo. Foi um crime. Pensei se tinha sido eu a matá-la. Eu que matei a minha vizinha da frente. A velhota da minha vizinha da frente. Matei-a do coração. Matei-a de falta de vergonha. Matei-a. Não aguentou o que via. O que viu. O que ouvia. Ai. O que ouvia. As palavras... Cerrava as janelas. Fechava-se. Devia tomar comprimidos para domir. Para esquecer desta puta da vizinha da frente. Eu cavalgando nele. Senti-a. Pressenti-a. Eu cavalgando nele olhei-a. Vou? Não vou? Cerro a cortina? Deixo-me estar aqui enterrada? Vou? Mas eis que o dia decide. Apressa-te. Apressa-te. Um susto. Que susto. Que vergonha. A dela. A minha foi orgasmo. Sentada na tua cara. Nunca mais a vi. Acredito que tenha tombado. Caído. Que tenha putrificado junto às portadas verdes. Que a tenham encontrado com um esgar na boca. De susto. Que susto.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Cérbera


Namio Harukawa

Café. Um amor e café. De manhã existe amor e café em mim. Um sono despenteado no corpo. Um ardor entre pernas. Um cigarro por fumar. Na frente, dias preenchidos. Dias com luz. Noites com prazer. Dias de flashs. De fotografias de recorte. De resumos de custos. Noites de saltos altos. De sapatos de verniz preto. De rabos empinados. De mãos na prateleira. Sopros no meu corpo. Sou feliz. Porque te espeto o meu rabo. Sou feliz. Porque te engulo entre as pernas.

Quando te conheci desconhecia o que me irias revelar. Quando te conheci o teu entusiasmo pela vida era semelhante ao meu. No final tocávamo-nos. No caminho podíamos dançar. Tinhas uns seios maravilhosos. E tens. Penso neles. Quando penso em beleza penso neles. Mamilos circularmente redondos. De encher. Encher. Encher covas de tecido. De perder. Perder-me. O olhar no teu corpo. No corpo que tentei conhecer. Pequeno. Mãos de dedos delineados. De perder. E perder-me. Recordo a tua expressão. De Ai e Ui. De querer. E correr. A expressão de urina sobre a cara. A expressão de nós crianças brincando ao não suposto.

Traz-me um homem que me ame os pés. E outro que me beije a boca.

À noite dançaste com ele. Eu sorria. Nas vossas voltas. E ancas. Rodopiaste com ele. Eu sorri. Nas mãos dele em ti. Na tua cara de criança bêbada. Que ternura. Existe uma carícia nos vossos corpos que sinto daqui. Que me chega daí a mim. Que me treme. Que me movimenta e faz levantar. E a beleza invade. Invade-nos e deixa-nos imóveis perante o cansaço. Os teus homens. Os teus taxistas. E drogados. Os teus mitras, vigaristas, ladrões, apaixonados. Os teus bailarinos e travestis. Tu que os vestes e despes de saias. Que depilas os pelos que eles não querem. Que ocultas barbas em faces morenas. Que dormes no meu sofá agarrada a homens assexuados. A putas. Que putas. O impulso. O impulso de mergulhares. E quem te segue perde-te nas profundezas porque tu sabes nadar. Porque em ti tudo são braços e pernas. Até à baralhação dos órgãos.

Um dia vou escrever-te. Vou revelar-te. Vou mostrar-te. Por agora deixa-me ficar a ver-te. A gozar-te. O jantar arrefece sobre a mesa mas tu virás. Vens sempre. Comes frio. Comes quente. Vens sempre. E chegas carregada. Partes de fugida. E voltas. Bebo café. Bebo as sopas que me deste. Até ao enjoo. Vende-me. Leiloa-me. E fica com o dinheiro. Embebeda-te com ele. Compra vinho, compra whisky, compra vodka. Compra amendoins e tremoços. Paga copos e rodadas. Vende-me. Vende-me pelo valor mais alto. Apanha um táxi e vai dançar. Vai esfregar o corpo contra promíscuos. Vai dar a mão a pernas peludas. Quando voltares roubas-me em gargalhada embriagada. Quando voltares eu terei aquela minha cara de gente. Quando derem por isso já não têm nada. És uma ladra.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Amor


Catarina Cabral

A minha rua descansa. Ainda dorme. Acordará estremunhada. Com o gato cor de cenoura. E as crianças. A minha rua silenciou-se cedo e não acordou ainda. É infantil. E todos os dias acorda para a escola. A rua que começa e acaba em calçada. Cinza. Dura. Quente e fria. A minha rua está em silêncio. E no silêncio eu. A minha rua é-me. E é. Tem cheiro a roupa lavada e a estendais coloridos. Tem Senhoras de cabelo branco e sorrisos nas palavras Bom Dia vizinha. Tem um carro. De vez em quando. Um acelerador em descontínuo. Tem-me a mim e ao da frente. Aos de baixo e aos do lado. Pedras que batem nas janelas. Gritos. Fado. Dias e noites. Sol de fugida. Ontem teve parabéns. E festa. E cantares. Música. Sardinhas. Motorizadas. A minha rua é. E eu nela vivo. Eu que nela já andei nua. Sim, ele despiu-me e eu senti-a. Na pele. No pudor de me apresentar assim. Desvairada? Vivida. Os pombos arrulham. E colam-se aos beirais e janelas. Passeia-se. Passa-se. Descem para se sentar num degrau. E conversam. Ouvimos. A minha rua é um palco. E os actores amadores. De piolhos na cabeça. E macacos no nariz. De rabos sujos e cheiros enjoativos. De meninos lavados. E quarentonas carcomidas. De escadas em madeira. E passos firmes. De janelas abertas. E convites à minha vida. Em varandas estreitas bebe-se café pela manhã. E comem-se gelados pela tardinha. Passam os dançarinos. Os que aprendem. E línguas estrangeiras. Vasos ao sol. Repousos vegetativos. Calor nas tardes. Som de chuva em pedra. Rios de água no Outono. E o miradouro em cima espreita a ponte e o sul. O adamastor enfurecido faz sombras aos cigarros e charros. A relva seca. E uma multidão ri-se e conversa. Mulheres com cabelo cor de fogo. Ondas douradas imensas. Eu de cima. Desço. E tal como o homem que tem de despir a saia eu dispo-me da rua que não é minha.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Avalanches


Otto Dix

Vamos dançar. Vamos tu e eu. E ele. Levamo-la a ela. Para a sala suja de pó com fundo vermelho de cortinas de veludo. Vamos agitar-nos no ritmo dos corpos a nosso lado. Manear as ancas. Agitar. Agitar. Mover-nos em onda. Secar as bocas dos beijos. E do desejo. Esquecer que um dia fomos concebidos nesta solidão intocável. Neste querer sem satisfação. Nesta procura febril. Vamos. Tu, eu, ele, ela, nós, e quem mais queira. Porque há sempre espaço. Espaço a receber. A estar. A adaptar. Vamos dançar. Olhar nos corpos a nosso lado. Revermo-nos nos corpos a nosso lado. Em proibição. Escondidos. Deliciosamente ocultos. Vem. Vamos dançar. Trocar de cigarros entre bocas. E goles de frescura na garganta. Vem. anda. Venham. Vamos dançar.

Há sinais nos dias. Sinais que me apontam. Que me seguem e perseguem. Sinais que me dizem. E me indicam. Fecho os olhos. Encerro-me em concha. Que fazer? Onde ir? Eu que aprendi a perder-me. E a encontrar-me. Em lágrimas. Lágrimas e risos. Em chorrisos. Eu que tenho o poder de chorar no prazer. E gargalhar. Rir de felicidade. De grande. Chorar pela angústia de tudo aquilo. De como é possível? A angústia de encontrar. Da possibilidade. Nestes ontens de impossibilidades.

- Se te deixo tu vais.
- Sim, irei.
- Não sei. Não sei o que fazer.
- ...
- Deixas-me sem saber o que fazer. Temo.
- Por nós?
- Por ti. És... de uma intensidade viciante...
- Desculpa.
- Não... Vai. E volta. Volta para me contares.
- Sim. Como sempre. Como preciso.

Tocaram-me. Tocaste-me. Tocas-me. Tocam-me. Volto-me. Olho. Vejo-te. Sorrio. Dou a mão. E parece que nada aconteceu até hoje. Parece que este período não existiu. E que sempre aqui estivemos. Juntos. Em harmonia. Mas é mentira. Mentira. Uma ilusão. O nó desatou-se. E perdidamente tentamos segurar nas pontas. Sabes o que fazer? Eu não. Não sei se pouse a corda. Se me enforque com ela. Se a enrole no pulso. Se tento enlaçar o primeiro que passe. Se me sodomizo com ela. Sabes o que fazer com ela? Eu não. É uma ponta. A pobre de uma ponta. A inutilidade nas minhas mãos.

Eu gostava de ter algo a transmitir. De ser mais que este vazio. Este vazio que se apoderou de mim. Este vazio que cresceu. Que me consumiu. Eu gostava. Mas tenho de aguardar. Aguardar que o silêncio se sinta. Que os meus ossos se descolem da carne e caiam. Aguardar e aceitar. Aceitar novamente este silêncio. Este silêncio que se apodera de mim. Sempre. Sempre que existe uma impossibilidade de sentir. Sempre que o cigarro apaga. Ele tinha receio desta angústia. Eu aceito-a. É primordial. E não me recusa o gatinhar. Nem o vestir-me de outra. Pôr uma peruca e ser loira. Uma cabra de uma loira. Porque eu gosto de cabras. E de bibliotecárias. Eu pedi-lhe para irmos devagarinho. Ele disse que tínhamos tempo. Que iríamos com calma. Mas matou-me à primeira. Escolheu matar-me assim que me viu. Esventrar-me. Degolar-me. Somos uns incapazes. Não existe em nós o equilíbrio dos pêndulos. Rebentámos com as rochas e agora... corremos.

domingo, 9 de agosto de 2009

Cinema


Manuel Alvarez Bravo

Mantém-te nessa posição. Assim. Baixa os braços. Assim. Isso. Fecha os olhos. Isso. Descontrai. Não vai doer. Garanto. Saberá a beijo. A beijo de línguas. De línguas húmidas dançantes. Grandes demais para permanecerem na boca. Inchadas. Em jogos. Em danças. Num bailado de saliva. Descontrai. Duas línguas que se tocam e criam o desejo de nos comermos pela boca. Descontrai. Vou colocar outra música. Esta é música de crueza. E eu quero-te morto. Embalar-te na morte. E trazer-te de volta à vida. Penso nela. Ela... Ela tem uma fixação com a morte. E eu julgava-me diferente. Até hoje julgava-me diferente. Que eu não. Mas olhando no passado verifico simulações. Tentativas de a sentir. Vontades. Quentes. Desejos. De deixar de sentir. De deixar de ser. É libertador. Suspiro. Descontrai. O desmaio do breath play... que tesão. O voltar. Em humidade. Em névoa. Xiu... Calma. Tens uma cicatriz no peito. Em forma de escaravelho. És sagrado? Conspurco-te? Para onde me levas?

Vi-me agora no espelho. Estou com cara de personagem do Antonioni. Cabelo pendente para a frente. Despenteada. Num desassossego. Mulheres em conflito. Que se debatem com elas e com o mundo. E pressinto as baratas na mesa. Il deserto Rosso... Um barulho infernal. Que barulho. Ruído que não pára. Quando acaba é um alívio e sentimos que estivémos doentes. Acamados. Delirando. Gosto de pensar na névoa. As relações pessoais. O médico e o paciente. Da co-dependência. De como necessitam um do outro. Em como o que é doente necessita do tratador. Em como o tratador não existe sem o doente. Aparentemente o frágil é um deles. Mas sorrio sempre na obtenção da resposta. Ou choro. Ou... excito-me.

Há uma cena que não me sai da cabeça. Em como eles copulavam a rir. Ela encavalitada nele rindo. Falando da família. Falando de outros. De como as crianças estavam indo na escola. Em como o Alexander estava ficando rebelde. Na avó. E nas mulheres. E tudo aquilo eu sentia como felicidade. Como intimidade. Como união. Cavalgo-te e falo na roupa que tenho para estender. E no que vamos jantar. Apoio-me nas tuas mãos e faço a lista de compras. Ergo-me nas pernas e enterro-me enquanto me contas a viagem do tua irmã. Com humor. Rindo. Os suecos tem um pouco de sangue italiano.

A minha sobrinha é como eu. Precisa de pessoas.

sábado, 8 de agosto de 2009

pausa


Ricardo Vercesi

Vais viver para sempre. E eu. Eu também. Também viverei para sempre. Vês os meus pulsos? Estão coçados. Do uso. Da vida. Vês? Chupa-me os pulsos. Bebe-os. Bebe a minha pele desgastada. Somos assim sozinhos. Mas somos. Há quem não seja. Há quem só esteja. Somos assim espelhados. Somente aí. E aqui. Vê. Vê como tenho os pulsos. Em como estão inchados. E não te sentes. Quero-te a meu lado. De máscara de gás. Sim. Eu sei que gostas. Sim. Tu sabes que eu gosto. Vem. Não te sentes. O amor dá-o a quem necessite. Eu tenho os meus pulsos. Vê. Lambe-me os pulsos. Vou por creme na cara. E lápis nos olhos. Preto. Um risco grosso. Preto. E pinto os lábios. De castanho. Fica-me bem o castanho nos lábios. Um castanho pardo. E ponho rouge. Para que tenha as cores da Primavera. Beija-me os pulsos. Como são sensíveis os meus pulsos. A pele desgastada dos meus pulsos. As veias paradas dos meus pulsos. São meus. Sinto.

Debruço-me à varanda. Escuto. Oiço vozes. Vêm longe mas vêm em fúria. Vêm longe. Aproximam-se. As vozes que eu reconheço. As vozes que eu esqueci. Vêm ao meu encontro. E quem são? E não lembro. Tento. Tento. E que não lembro. Mas vêm iradas. Que me querem? Que me querem? Será que? Será que falhei em algum ponto? Em qual? Em tantos. Meu deus em tantos. Aquela voz. Xiu. Reconheço aquela voz. Algures aquela voz falou-me. Num tempo. Em que tempo? Que me disse? Que me disse aquela voz? E eu que não lembro. Socorro. Não lembro. Aproximam-se. Cuidado. Escondo-me? Onde me escondo? Quero fugir e o meu corpo aqui parado. As minhas mãos. Os meus braços. Onde tropeço. Tropeço parada... Sem um único movimento. Ai. Vêm zangados. Gritam. E eu que não lembro. Culpa. Que culpa... perdoem-me. Ajoelho-me? Peço perdão? Ajudem-me. Peço ajuda? E o corpo que não obedece. Este corpo parado. Mas... passam. As vozes passam. E continuam iradas. Mas quem são? Passam... Não me procuravam. Não pararam. Nada me queriam. Quem seriam? Mais um círculo de repetição? De uma culpa primordial que se quer fazer sentir? Senhor eu não sou nada.

E não sou eu. Não sou. Ou também sou. Sou também eu. Então? Decide-te? Sempre a negar. Sempre a dar um passo atrás. Sempre a afirmar para colocar em dúvida. Decidi-te. Está decidido. Não sou. Ou sou mais. Então? Bem. Sou isso mas também aquilo. Então, o que és? Vendo bem. Sou nada.

Há gente a gritar na rua


Luís Durão

Deito-me ou mantenho-me acordada? Já não sei o que fazer. Que fazemos às sete da manhã de Sábado? Sós. Lemos. Já li tudo o que havia a ler. Ressinto quem não escreve para que eu leia. Não me apetece ler papel. Apetece-me ler com os olhos. Não com as mãos. Apetece-me ler na luz. Não na escuridão. Lá fora lavam as ruas. A água. O som. Os gritos. Fecha. Abre. Pintar paredes? Sair para a rua. Debruçar-me lá em cima. Ver a ponte. O rio. Os barcos. O lixo no chão. A rede. Ver pela rede.

Parece que foi de manhã. A carroça chegou ainda era de noite. Levou o corpo. A mulher de bigode moreno. A que sorria à nossa passagem. E que dava broas com pinhões. Parece que foi de manhã. O corpo pequeno. Curvado. O peso de se ser sorriso numa vida pesada. De ser vaca, boi, asno. De ser terra e cascas de favas. Para o gado. De alimentar galinhas com ervas de valeta. Parece que foi de manhã. Numa carroça. Na rua suja de cocó de ovelha. Salto aqui. Salto acolá. Falhei. Esfrega na erva. Salto aqui. Salto acolá. Eu não. Vamos seguir o rio e perdermo-nos nas hortas. No caminho velho que agora está alcatroado. Assassinado. As minhas memórias enterradas. Em pontes romanas acimentadas. Em quintas napoleónicas pintadas de rosa. Em pombais arruinados. E o vizinho já não toca as canções do antigamente. Agora existem play lists. E rádios.


Ele assinou M. Eu pensava que era P. E antes J. Eu que sou C. e A. e V. E... e uma prostituta. Uma prostituta. Somos umas prostitutas.

O Cais do Sodré cheira a hortaliça podre. Resta-lhe esse cheiro. Somente esse cheiro. Já tem clínicas de estética. E meninas de Cascais. Os hits de Verão com coreografias. A fazer lembrar Praga. E os homens feios de Praga. De bigode e olhar duro. As mulheres bonitas de Praga. Sensuais e femininas. A ela comi-as. Traz-me um recuerdo. Um recuerdo em forma de falo. Ou de marionete. Ou de prato. Um galo de Barcelos. Um saco do pão. Uma camisola de lã branca. Traz-me um pratinho com o meu nome gravado a azul. Se couber. Se o prato for grande. Ou mandas gravar "Eu". Apenas eu. O meu nome. Ou um prato em branco.


Eu podia trabalhar por turnos. E fazer três ou quatro de seguida. Talvez assim dormisse. Talvez. Ser vigilante numa fábrica. De noite. De dia. Numa fábrica com chaminés altas e fumo colorido. Luzes dançantes. Focos e cheiros nauseabundos. Vestia farda. E apertava as calças na cintura. Para me sentir uma foca. Colocava um anúncio procurando noivo. Apresentava-me como uma romântica. Que gosta de rosas e ganchos no cabelo. Que gosta de golfinhos e bonecas de porcelana. De ursinhos de peluche e almofadas em forma de coração. Em veludo. Fofinhas. Fofinhas. Depois escrevia poemas. Sobre o pôr-do-sol. Sobre leões e passarinhos. Escrevia poesia sobre beijos sensuais em mamilos rosáceos. Sobre peles macias em mãos de dedos finos e travessos. Calçava sapatos de verniz verde. Ou lilás. E saias rodadas brancas com padrões coloridos. Camisolas de renda azul bebé e casacos de fazenda xadrez. Pavorosamente romântica. Pavorosamente idealista. Pavorosamente alegre. Pavorosamente feliz.

Sangro. Vou comprar tampões.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

vestidos para matar



Se eu acreditasse em deus cantava-te. Cantava-te esta canção. Cantava. Se eu acreditasse em algo. Se eu acreditasse. Se eu acreditasse ainda em ti. Se acreditasse em alguma coisa mais que não neste corpo que sente. E sente? Será que sente? Não sei. Nada sei. Sei que gostaria de acreditar na verdade. Numa verdade. Numa qualquer verdade. De ter certezas. De não ser em dúvida. Em cepticismo. De acreditar na misericórdia, de alguém. De alguém que não eu. De acreditar na bondade. De alguém, de alguém que não eu. De acreditar no amor. Na força do amor. Se for essa a tua vontade. Frase bonita. Frase poderosa. Frase que já nomeei a pessoas. Nunca a deuses. Se for essa a tua vontade.

Uma ilha no pacífico


Wolfgang Eichler

Olha para aqui. Aqui. Neste buraco. Este aqui aos meus pés. Foi de onde saí. Agora. Há pouco. Não há muito tempo. Olha. Vê. Vês? É escuro. Sim, negro e húmido. Foi de onde saí. Onde estive. Escondida. Reclusa. Prisioneira. Com e sem vontade. Foi dali. Deste buraco. É escuro. Apercebi-me disso no dia em que ele elogiou o meu decote. Não o vi. Perguntei-lhe se o via. Disse-me que não. Que o sentia. Como aqueles dois no elevador. Sim, aqueles dois que formavam um casal. Ainda que ele tivesse amantes. E ela, ela talvez calasse os dela. Não sabemos. O filme acaba e ficamos sem saber. Mas vê. Debruça-te e vê. E cheira. Cheiras? É turvo. Sombrio e recôndito. É frio. É peixe, é talho. É cadáver e entrega. Foi daí. Daí que eu saí. Puseram-me lá dentro. Mas eu quis cair. Ai! Se quis! Ai! Como quis! Aqui é tão claro. Cego. Lá existe a música da água. Dos pingos. Da humidade. Do eco. De mim. Da minha voz. Do meu roçar. Do meu respirar. Lá tudo é... exageradamente exagerado. Até o sono. O sono pleno de sonhos. Um eterno sonho. Uma confusão de sono com sonhos. Muitos. Aos milhares. Todas as noites. Ou dias. É escuro. O sono que é rápido. O sono que é carcomido pelas dores e desconforto. O sono que não é descanso. É um sono cansado, estoirado, estranhamente acordado. Sim. Olha. Vês. Ali. Ali, naquele canto. Foi onde caí. Sangrei. Mas sangro todos os meses. O meu sangue sabe a ferro. Sabe a sexo. Sabe a fígado de frango. E levantei-me. É fundo. Sim, é fundo. Como muitos buracos. Meus. Meus. Fundos. Negros. Os da minha mente. Tenho buracos na testa. Arrancaram-me memórias. Deixaram-me esta corrente de ar. Agora que olhaste responde-me. Respondes? Responde-me se eu quereria lá voltar? Eu que quis cair. Eu que me levantei. Eu que me ergui. Eu que me queixei. Eu que me parti. Quereria eu lá voltar? Responde. Voltar para esperar? Para manter-me na espera? Esperar pela luz? Esperar pela mão? Esperar porquê? Há luz aqui. Muita. Demasiada para os meus olhos. Mas há. Há mãos aqui em cima. Demasiadas mãos que me atormentam e movimentam. Mas há. Há mãos. Seria pouco inteligente em querer lá voltar. Em querer fingir que te espero. Em querer fingir que espero sei lá o quê. Fica o buraco livre. Experimenta tu. Não? Ri-te. Eu também me rio. Sim. Somos todos especiais. Até. Até ao dia em que o deixamos de ser. Até ao dia em que somos todos igualmente iguais. Todos estupidamente iguais. Todos ridiculamente repetitivos. Todos. Tu e todos. Eu e todos. Todos.