domingo, 14 de março de 2010

Print Screen

 Harukawa

Há um corpo que se quer estendido. E uma manta que amolga um outro corpo que não existe. Por agora. Para sempre. 

Olha-o e sente todo o amor que é possível a consumi-la. De tão forte afasta. De tão intenso isola. Como se perante sentimentos de partilha não conseguíssemos ser mais que seres solitários. Como se o sentimento fosse além do ser. Da pessoa. Irracional. Imoral. Independente. Amo-te porque em mim existe este sentimento de amor. Amo-te porque não posso contrariar. Nem quero. Amo-te apesar de ti. Amo-te não por seres quem és. Ou não apenas por isso. Amo-te porque... porque tinha de te amar.

A mulher da frente hoje não aparece. Sentada.
Estou branca. A minha pele transparece o Inverno que não acaba. Os dias de chuva intermináveis. O cansaço tolda-me os sovacos peludos. Lavo-me na imensidão da casa que sinto nossa. Minha com objectos teus. Tua com objectos meus. Nossa.

Há um livro sobre Fadas e Elfos. Por ler. Junto à porta. Na mesa de três pernas coxas. Há um sem número de livros e recordo-me do último jantar que me ofereceste. E da tua raiva em amares-me. Em queres-me. Em seres bem sucedido. Amo-te pela passividade que perturbo com prazer. Por vezes sinto uma imagem em sombras a nosso lado. Sou eu. Ocultando-me. Revelando-me. Sou eu.

Homens-gato. Homens-cão. A fidelidade é uma mentira. Precisam-se putas. Sem medo.

Lavagante. Lavagas-me o corpo e magoas-me nestas manhãs. Eu que um dia te darei uma chibata para que me sangres.

O cão está ao lado da tua cadeira. A que já não vejo como minha. Por cedência. Porque a mim importa-me o sentires-te bem. E é nas minhas unhas que revejo o passado. O que contei. O que calei. É das minhas unhas que retiro restos de ti. Do teu cabelo. Do teu suor. Do teu ânus. São elas que me falam nas manhãs em que é doloroso sair de casa. Em que eu gostaria de ser vaca para pastar em prados altos e verdes. Ou gato para me aninhar nas tuas calças sujas.

Levanto-me
Vou.

terça-feira, 2 de março de 2010

Beringelas recheadas com o que nos apetecer


Diane Arbus

Senta-se no beiral da porta aguardando a moeda. Senta-se no beiral da porta olhando-me de baixo. A mim e aos que me seguem. A mim e aos que me antecedem. Senta-se.

Só hoje reparei como tinha o cabelo comprido. Amarrado atrás do pescoço escorria pelas costas e tocava na cintura. Fino o cabelo. Fina a cintura. Só hoje reparei. Em quantas coisas só hoje reparei? Em quantas coisas hoje não reparei? E ontem?

Abomino donas de casa e fadas do lar. Abomino jantares e namorados. Abomino maridos e convenções.

Leio.

Sentada nuns degraus. Na parte turística da cidade. Sentada.
Oiço.

- Eu não vou deixar de ser rica - dizia com o cabelo apanhado no topo da cabeça enquanto a franja lhe caía sobre os olhos. 
- Nunca. Nunca vais deixar de ser rica. A meus olhos - disse-lhe com o cabelo despenteado sobre uma cabeça que não sentia minha.

Supermercado.
No Sábado fodemos com o Bruno. Lembras?
Não. Eu esqueço o que me traz... prazer?

- As latas de atum?
- Sairam a voar pela janela que estava aberta.
- Lentamente.
- Aos teus olhos.

Vou deixar-te sentar neste lugar. As facas estão afiadas.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Perde-me(te)


Alain Tex

Ping. Ping. Ping.
O melro canta. E eu olhando no seu cantar indignado desejo que ele morra a meus pés. Desejo-lhe a cor das penas das asas. Desejo o seu toque. Desejo a sua morte para o calar.

 
Ping. Ping. Ping.
Ping. Diz-me um homem. Comigo sentada. Olhando-me com raiva. Ou com medo? Ping. De pingar. Ping. De chorar.
 
E é num copo que deito a cinza. E num pranto que me fecho. Lembro a alma que foi minha. Ping. Ping. Ping. Traz.
 
Lavoura adentro. Lavoura de vinha. Lábios grossos que quero calados. Lábios grossos que quero beijar. No topo. Acima. Comigo sentada. De cima. Um coração que eu desejo sangrar.
 
Ping. Ping. Ping. Traz.
 
Não é rima. Nem é prosa. Não é nada que não nós. Eu. E tu. Nós.
 
É esta vontade premente.
Dormente.
Omnipresente.
Crente.
Insaciável.
De contigo estar.
Amor.
 
Ping. Ping. Ping. Traz.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Peugeot Partener em forma de coração

Shadi Ghadirian

Pouca terra, pouca terra... muita terra, pouca terra.
Diz-me tu cigano quantos dedos cabem no meu ânus.
Cabe algum? Cabem todos? De uma mão? E dos pés?
Diz-me tu lambe botas quantos caralhos já lambi.
Foram 2 ou três?
 
A mamã dá licença?
Quantos passos?
Oh caranguejo que me revejo.

 
Estoira.
Pó. Cimento. Estuque. Vitaminas.
Frescura pela manhã com sabor a caracóis na cabeça. E um miúdo egoísta que me sorri compenetrado em ser gato.
Surpresa. E é no micro-ondas que aqueço as salsichas que não foram comidas ao pequeno-almoço. É lá entre paredes brancas e pó que leio a etiqueta de € 5,99. Ao som de "My moon, my man".

E é sempre um desespero ser feliz. Estar feliz. Nada a dizer. Feliz. Que dizer? Feliz. Felicidade cria crianças. Felicidade cria cómodas e mesinhas de cabeceira. Felicidade cria danças entre luzes. Felicidade cria pavimentos de madeira. Mas não cria letras em mim. 

 
- Quanto tempo?   
- Não sei. Até... ao fim.
- Até ao fim.
- Seja.
 
Run...
 

Amo-te. A valer. Ponto.

sábado, 23 de janeiro de 2010

Um homem nu num sofá preto com nódoas


Shadi Ghadirian


Há um homem que ouve os filhos passarem na rua. Ele ouve. Eu sentada a seu lado não oiço nada que não o som de fundo do computador ligado. Ele ouve e levanta-se. Acena à janela. E eu olhando-o por detrás de um candeeiro lembro-me de filmes italianos com crianças ranhosas que chamam pelo pai babado. "Que queridos" diz olhando no vidro. E sim, são. Tem a cara das crianças felizes e despreocupadas. Das crianças que são levadas à escola por pais atenciosos e saem da escola pela mão de uma ama e uma empregada. Sim, são queridos.
 
Há uma casa que se queria arejada. Uma corrente de ar a entrar pelas janelas e saindo pelas portas em direcção ao céu. Em vez disso tem pilares metálicos segurando o tecto. E um homem ausente.
 
Uma mulher canta. Tristemente. Canta tristemente. Uma mágoa que se apodera do meu regaço sem rosas. Que fala em peixes e em nascimento. E uma loucura de lágrimas corrida percorre-me o corpo excitado pelo meu amante que joga poker.

Coloco uma música para ti. Saberás que é para ti ainda que não te diga? Ainda que me cale. Que oculte a tua importância no meu coração e na minha cabeça. És o meu abismo de silêncio. Aquele a que me dedico quando te olho. Ou olho no lado. No nosso lado. Na nossa lateral de desarrumação de móveis e loiça. De pó pelo chão e copos por lavar. Ainda assim o teu sorriso permite-me escrever. Ainda assim cantando. Sim, cantando, escrevo.

 
"Bajo la sombra de un payande".

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Poker de cartas


Shadi Ghadirian


Larga da casa partida. Foge. Vai. Corre. Não olhes para trás. Vai. Não pares. Passa. Passa por esse canto. Por essa rua de casas rosa. Por essa travessa de casas amarelas. Vai. Não pares. Não jogues esse jogo de revés. Ou joga. Joga olhando-me nos olhos como quem não vê. Ou como quem mente. Mente. Sorri e mente. Ilude-te. Não? Não.

Há um gato perdido na pradaria. Acha-o. Beija-me.

Falo-te nos tempos do álcool etílico. Do estômago com fome. E das farturas comidas debaixo de toldos sujos. Falo-te. Ouves? Falas-me de amigos. De família. De tratados de justiça. De bebedeiras de insanidade. Falas-me.

- Regressa por essa estrada.
- Por aquela?
- Não, pela do lado. Essa leva a nada.
- E o que é nada?
- É... não se sabe. Não sei.
- Obrigado.

Vou fazer-te um poema.
Embriaga-me e fode-me. Ou lambe-me. Mas não me deixes a escorrer das pernas.

- Como estás filha?
- Estou bem. E o pai?
- Bem. Pena não teres cá vindo no fim-de-semana...
- Sim... pai. O trabalho... e precisava de descansar.
- A Céu fez língua e esteve cá um circo.
- Sim...
- Pensei em ti. Em como poderias vir cá mais vezes. Não precisas de trazer nada...

- Talvez... numa outra altura pai.

No tempo dos patinhos com rodas existia um homem que falava em Napoleão e nas conquistas romanas. Falava em tesouros escondidos e conventos abandonados. Falava em nós. De uma forma mentirosa. Maravilhosa? Iludida? Adoro-te. Mas não consigo perdoar-te. Como se fosses uma sina. Ou um fado. Ainda assim perdoa-me.

Levo no saco uma fortuna. Na saca que me acompanha quando dobro o braço e ela se encosta às ancas e se movimenta com as minhas pernas. Uma fortuna. Um valor incalculável de... nada.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Neve entre as pernas


Eugène Atget

Há algo que se mexe nas minhas costas. Sinto mas não olho. Evito olhar. Com medo de te ver. Que sejas tu. Afinal não estás aqui e eu sinto-te. Mas algo mexe. Que mexe atrás de mim? Que se mexe? Quem se mexe? És tu? Tu que não estás. Serás? Não sei. E nesta dúvida sento-me. De costas. Sempre de costas. Para que não me assuste olhando nos teus olhos. Para que não gema quando o teu olhar cair em mim. Sento-me e mantenho-me assim de costas. Afundo-me na cadeira. Tacteio os braços de madeira. Sinto a idade dos mesmos. Levemente. O meu sentir está nas minhas costas. Está na parte detrás de mim. O soutien prende-me os seios e eu quero respirar. Quero tirar o soutien. Quero poder despir-me em isolamento. Intimidade. Mas algo se mexe por trás de mim. És tu?
 
Há um segredo.
 
Culpa.
 
Lentidão.
 
Gin tónico.
 
No andar abaixo do meu uma mulher embriagada canta canções da Colômbia. No andar acima dela uma mulher com vontade de estar embriagada senta-se a uma mesa. No andar em frente ao meu um casal ama-se. No andar em frente ao deles uma mulher deseja amar. No andar abaixo do meu uma mulher discute com um homem. No andar acima uma mulher vive sozinha.
 
Cantemos. Em coro. Em coiro. Cantemos.
 
Há dias que a minha obscenidade atinge picos de loucura. E hoje. Somente hoje. Só por agora. Ejaculava-me no cu e lambia-me.
 
Agora. É agora.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

GLS


HiroshiWatanabe -Yuka Onozawa & Ikki Tada - Matsuo Kabuki

Há uma necessidade de mudança em mim. De limpar o pó das estantes e encostá-las às paredes. De dar outra cor aos móveis. De tirar o cotão dos fios enrolados a meus pés. Mas antes disso deixa-me contar-te esta história de amor. De uma paixão surgida em noite que se fez dia. E em dia que era noite. Numa vertigem acabada numa casa quente com lençóis sempre sujos de lama e suor. Ao que parece ele desdenhava de paixões. Insegurança? Não sabemos. Sabes? Não sei. Parece que considerava tudo isso uma lamechice do pior. Ela? Ela aparentava ser feliz na solidão. Era? Não sabemos. Mas tentava. Sim, tentava. Ao que parece tentava.
 
- E aqui estamos nós olhando um no outro, demorada e silenciosamente, como se não existisse nada melhor.
- E há?
 
Há roupa espalhada pela casa. Um bafo quente a fumo. A corpos. A whisky e manchas de urina no sofá. Roncos. Gemeres. É madrugada. Dizem. Ouviram dizer. Mas tiram-se fotografias com rebocadores e dão-se beijos em seios nus de camisolas cinzentas. Numa curva. Porque tudo acontece sempre numa curva. No começo. E no final. Curva-se para que sintamos. Há esboçar de alegria espontânea. De contentamento e angústia. Felizes porque se têm. Temem e tremem. E eu gostaria de ser ela. E sou. E gostaria de ser ele. E sou. E nas promessas de banho ela entre sempre sozinha na banheira. Acorda cedo. Aprendeu a ouvi-lo ao longe. A visualizar-lhe as pernas compridas. A querer os dedos dele nela. Um desejo. Ele que aprendeu rápido a manejar clítoris e seios.
 
- Gostas de mim ainda vendo que sou também assim?
Silêncio. Mudo. Silêncio.
 
Estranho. Não há vontade em concretizar. Em matar. Em esgotar. Não há pénis nem vaginas que o permitam. Nem membros suficientes que o expressem. Não há nada a não ser dois olhos em outros dois olhos. E uma comunhão assustadora. Completa. Terrível. Ele que procurava tarefas. Ela que deixara de procurar. Numa sala de luzes intermitentes. Ele está ao longe. De camisa preta. Há dois olhos pousados nele. E um orgulho em ser daquele sorriso. E uma procura em desfazer-lhe o corpo aos estalos. Na incapacidade de entrar pele adentro. De desfazer o corpo encontrando outro para que se reveja. E veja. E o veja. E sinta as expressões que perde quando se perde. Porque quando nos perdemos fechamos os olhos e deixamos de ver os outros olhos.
 
- Sinto-me vivo.
- Morro.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Quinta do Rei


Manuel Alvarez Bravo

Existiu um olhar. Breve? Não lembro. Mas sei que existiu. Um segredo contado com dedos de pés descalços. Uma manta de beijos sobre a minha pele. A tua. A que me clamava. Eu que te via alto e criança. Depois as nossas bocas oralizaram. E revelaram-se de dentes e línguas teimosamente irmãs. Uma descoberta. Foste. És. Uma descoberta. Foste. És. Um desejo. Um desejo que dou por mim a alimentar como se fosse menina.

Existe um acto. O de me lavares as mãos. E o corpo. E a mente com vinho tinto. Um acto que quero até ao entardecer dos nossos corpos. Uma poesia. Um bocejo. Uma vontade de te matar nos meus braços. Ou entre as minhas pernas. Ao sufoco. Agora. Já. Aqui.

Chove lá dentro. Abraça-me.

Há uma criança que trata os pais pelo nome. Que fala sobre os raios de sol como se fossem físicos. Materiais. Lembro-me dela. E de mim. Comer papo-secos ao sol de Dezembro. Camisolas de lã verde e branca. Gatos no peito e nos beirais. As flores e as amoras. Beijo a minha irmã. A do sinal no queixo.

É Alvarinho? Fresco. Neste aguardar por umas pernas que se torçam nas minhas.

Fodo-te.

Minto. Minto a quem quero. Bem. Quero bem. Muito bem. demasiado bem. Minto sabendo que minto. Minto porque o meu corpo quer. Quer. Deseja. Minto. Sinto-te.

Das minhas torneiras jorram jactos de água quente para me aquecer a pele. Sinto-me a amar-te. Por vezes. Em dúvida. Por vezes.

Nada substitui a escrita. No entanto, não consigo escrever.

Vou.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Príncipe do Calhariz



Diane Arbus


É no teu olhar que me perco enquanto procuro o que pensar.
No fogo. Na mente. Nas mãos. Nas axilas. Tudo arde. Arde em maré de vermelhos e laranjas.


Tusso.

Eu digo-te e oriento-te. Mas eu não sou eu. Apercebes-te? Sim existem dias em mim que a voz se torna entorpecida. Desculpa. 

E tu sorris-me como se eu fosse alguém especial. Importante na tua vida. E eu sinto-me pequena e inútil. Inútil como as toalhas de renda feitas pela minha mãe. Que têm simbolismo mas que eu acabo por nunca usar. Desculpa.

Há uma música que toca. A que me deste a conhecer e nem sabes a importância da mesma. Eu que te escondo a minha compulsividade e me mostro... equilibrada? E há dor em mim. Sentes? Não sei. Eu que te quero bem e te trato como um miúdo nesta minha arrogância. Torno a pô-la? Deixa ouvir o que se segue. Desculpa.


Lábios nos lábios. E uma vergonha em mim. Perguntas-te porquê. Eu respondo: eu não sou eu. Somente isso. Eu não sou eu. Sentes? É outra. Não a conheces. Esta é a completa. Mentira. É a alucinada. Inadaptada. Torno a pôr. Desculpa.

Quantas vezes mais? As que quisermos. As que conseguirmos. As que eu conseguir. Desculpa.

Telefonas e questionas-me. E eu que quero que sejas tu a decidir. Eu mulher preguiçosa. De momentos. Cansada de responsabilidades e eficiência. Decide. Porra, decide tu! Desculpa.

Choro. Desculpa.

Que grande merda... um dia escreverei algo interessante. Desculpa.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Pedrouços


Paolo Ventura
 
É no escuro. Neste escuro da luz diurna que me entretenho com os objectos que me deste. Aqueles que não querias mais porque te ocupavam espaço no peito. Os que deixaste à porta de casa. Encostados à tinta cinza azul esmalte. A palidez da minha na tua pele. A que tu chupas e mordes. Como se fosse sempre o último dia. É estranho que não te conheça. Eu que viajei em círculos. Lambo-me.

Empurro com a mão. Empurro. E empurro-me.

Lembro do tempo em que os meus passos seguiam aparentemente sozinhos. É o cansaço que me invade e não sei se me sente ou morra. Peço-te ajuda nesta ilusão que quero construir. Façamos de conta que somos felizes. E satisfeitos. Que estamos bem com a vida. Dançamos. Samba? Qualquer coisa de abanar a anca. Porque ancas como as minhas querem-se movidas. De encontro a ti. Rebolo-me.

A cara triste de uma mulher feliz. Vi. Hoje. De manhã. Os olhos apagados. As sardas morenas descoloridas. Porque são sempre os maridos tão chatos? E elas sempre tão prontas? No Inverno construímos casinhas que destruímos na Primavera para que passeemos nus na chuva de Maio. Dá-me flores que eu sorrio. Nos lábios dela húmidos perdi-me. Porque ela não sabe escolher. É corpo. Em abstracto. Sabes do que falo? Calo-me.

- Alguém tem paciência para estudar este ser?
- Eu... Eu creio que terei professor.
- E quem és tu?
- Meu nome é Kitana.
- Pois é teu... Kitana.
- Obrigado, professor.
Despedaço-me.

Que abafado. Está abafado. E será naquela casa amarela. Numa rua curvilínea. Num rua estreita. Com carros de polícia. Sem polícias. Somente carros. Brancos e azuis. Ela vai dizer-lhe que é tudo mentira. Que tudo já estava escrito antes. Que ela não inventou. Está incapacitada de inventar. De criar. Vai dizer-lhe que já existia tudo aquilo. E tudo isto. Mas animemos. Animemos. Cantemos gospel. Vestidos de túnicas brilhantes. E óculos de massa. Antes fumamos qualquer droga. Para compor. Compor um quadro que se quer ritmado. Dançante. Risonho. Abstraio-me.

São nove horas. Quando forem dez vais telefonar-me a dizer que tiveste um acidente. Que tens as duas pernas partidas. Que não te consegues mexer. Que seguras o telefone no chão. Que os teus dois braços caem-te no alcatrão. Que te dói apenas a cabeça. Um névoa densa na cabeça. Não te mexes. Espreitas. Movimentas os olhos. Estás estirado no alcatrão quente. Está quente. E são apenas dez horas. O meu número é o último da tua lista. Pedes ajuda. Eu oiço-te. Tenho vontade de te ver engessado. De te bater engessado. De te castigar engessado. De te fazer depender das minhas mãos. De teres de me pedir tudo. Comida. Água. Jornais. TV. Xixi. Cocó. Tratar-te como a um deficiente. Como a um bebé. Vingar-me. Vingar-me por seres assim. Bater-te. Venho-me.

sábado, 28 de novembro de 2009

O Optimismo da moca


Self portrait 3 - Albano Ruela



Existem gestos maquinais. O tirar as embalagens. O  pão integral alemão com sabor a cerveja. O frio da porta que se abre. E tudo se faz maquinalmente. Como se soubesse que tem de ser assim. Como se soubéssemos. O ler a mensagem. Uma leitura. Sim. Manda-me mensagens. Tu que julgas conhecer-me. Ou não.

Vou inspirar-me.

Guardo uma foto. Guardo-a porque me diz muito. Para um gesto de perfeição. Que não existe. Que nunca existirá porque em mim não há perfeição. Somente a sua procura. Ou o seu oposto. A procura do seu oposto. Degradação... Rebeldia? Guardo-a porque perante ela silencio-me. E tem poder sobre mim quem me silencia desta forma. Eu mulher de silêncios. E comunicações. Orais. Corporais. Fluídas. De fluídos. Eu mulher de partilha tenho silêncios invasores e perturbantes. É o passado que constrói. E o presente. Fruto.

Um relógio e dos meus olhos escorrem lágrimas. Como numa despedida. Obrigado mãe. Obrigado porque tenho de ti os dois objectos que mais me fazem lembrar-te. O relógio e o cadeirão. E perdoa-me. Perdoa-me este sentir. As pessoas. Envolvem-nos. São o melhor e o pior do mundo. Beber olhando nas suas fotografias e sentir quão absurda e ingrata é a nossa vida. De encontros. Felicidades. Momentâneas. E no entanto  abrangendo tudo isto, o amor. Obrigado mãe.

Eu sou a filha pródiga. O ter visto e passeado pelo mundo deu-me uma leveza que as minhas irmãs não tem. Mas em séria preocupação. Eu sou leviana. Existe uma aceitação em mim que exaspera. E desespera. Eu não aprecio surrealismo. Prefiro o realismo. E o neo-realismo.

Um dia se voltar lá... fico lá. Morro lá. Viverei segundo as leis da rua. E da vida. O meu pai deixará de me falar. E a minha mãe morre. Lentamente.



Há um copo de leite. Cheio de vinho branco intragável. E duas pessoas tentam pisar um risco amarelo grosso traçado no chão preto cor de ardósia. Em alcatrão para ferir os joelhos. E é na gravilha que todos caímos. Espetados com o queixo entre as pedras. Feridos. Hirtos. 


- Vais pisar?
- Vou. Que queres que eu faça? Se...
- Mas... Sim. Eu sei. Mas... e se de repente aparece...
- Desvio-me. Ou mando-me e termino de uma vez por todas com isto.
- Vou sentir saudades.
- Fazes café. E lembras de como dormia com os lençóis a taparem-me a cara.
- Chorarei.
- Sim. Chorarás. Eu sei. 
- Porque a morte te fascina assim tanto?
- Porque a vida é... completa.
- É? Não sinto. Às vezes... às vezes sinto-te tão longe. Tão longe de tudo. De mim. De nós. De ti mesma.
- Vem lá. Piso!
- Não!
- Piso...
Ouve-se um ruído. Metálico. Os travões do metropolitano que pára, travando. As portas abrem. De dentro saem pessoas. De olhar em... na frente. Em baixo. Onde olham? De onde vêm? Para onde vão? De dentro saem máquinas. De olhar em frente. Em outros que não nós. Nunca nós. Saem e vão. 
- Entremos.

sábado, 21 de novembro de 2009

Lingerie


Elmer Batters

Uma montra iluminada no interior. Do lado de dentro reproduz-se uma luz amarela. No seu exterior um homem jovem acena. Olha para dentro e agita o braço. Esta montra encontra-se no final de uma rua perpendicular. Que eu desço. Não consigo deixar de sentir. A beleza da luz da montra, do espaço loja que encerra. A luz que se esbate num corpo jovem que acena perante a mesma. Chegar-me e dizer-lhe:


- Belo. Que Belo.
Agradecer-lhe pela beleza que me provoca.
- Obrigado.
E de seguida pedir-lhe desculpa por ser assim.
- Desculpa.
E num passo. Vestida de preto. Calçada em ténis. Sair dali. Sentindo com a música que me invade. A escrever. A partilhar. O momento.
Belo.

Um pontapé no olho. Doi-me o nariz. Vês? Não estou enterrada. Ainda. Apenas me encovo. Lentamente.


Existe um homem vestido aparentemente de mulher. Perguntamo-nos porquê. Mas o olhar dele revela... silêncio. Está sentado à beira de uma gare. Vê passar os comboios. Não tem dinheiro para o bilhete. E ainda que o tivesse, gastaria em rebuçados e caramelos de fruta. Porque ele está sentado. De pernas dobradas em calças de fazenda cinza. Os sapatos destoam. São de pele castanhos. Com mossas do tempo.

Ele caiu. Numa pista de dança vazia. Enquanto eu na sanita da casa-de-banho me encostava aos azulejos brancos e adormecia na dormência da minha existência. Doía-lhe o corpo todo. Mais o peito. Acordou pensando que tinha sofrido um AVC. Ou um enfarte. Eu ri-me. Ri-me da noite que nos engoliu e nós deixámos. Porque necessitamos que nos traguem. E mastiguem. Ou engulam sem saborear. Ainda que gostemos de beijos com sabor a amêndoas.

 

Existe um quadro pendurado na parede. Diz "Boys make good pets". Sorrio.

domingo, 15 de novembro de 2009

Lastro


Otto Dix



Tem as pernas nuas. O tronco nu. Na mão um cigarro arde. Está sentada numa sanita. Branca. Simples. Numa casa-de-banho cheia de objectos e frascos. De tecto às riscas azuis. A lembrar uma tenda de circo.Ou de praia. Fuma. Na sua frente a cortina do banho. Que mexe de vez em quando. Como se sentisse que de alguma forma alguém se escondesse por detrás da mesma. Fuma. Aparentemente está sozinha mas de repente solta uma gargalhada. Irónica? Cínica? Não se entende. Parece infantil. Meio ingénua. Mas ficamos na dúvida. Talvez não seja assim tão simples. Movimenta-se. Mexe o rabo na sanita e adapta-se. Olha na barriga. Na borbulha que lhe cresceu de noite. Na barriga. Com o dedo de unha partida espreme-a. Não rebenta. Desiste. Olha entre as pernas. Nos pés. No papo entre as pernas. Sorri. Sorri para a cortina branca da banheira. Eleva uma mão. Está sozinha?
- Não é uma questão de afecto.
Pára. Debruça-se sobre o tronco.
Olha nos pés. Arranjados. Minimamente tratados. Nus. Despidos. De verniz do Verão. De feminilidade produzida.
- És tu.
Olha no espelho. Onde só verá... a cortina branca da banheira.
- Eu não sei. Não sei o que fazer... a minha vida? 
Onde deveriam existir certezas. Há esta pasta de dúvida e angústia colada à pele. Onde não procura. Procura? Ser eficiente. Produtiva. Independente. Neste mundo que a cala. E silencia.
- Eu não sei...
Repete. Repete-se. O dedo da unha quebrada raspa a pele da perna esquerda.
Olha nos pés. O tapete branco muda de cor. De vermelho a amarelo. Atira o cigarro para a sanita. Levanta-se. Vira-se. Perante o manípulo estragado do autoclismo baixa o tampo da sanita. Desiste. No andar algo estranho. Como quem reaprende. Como bebé.
O seu corpo está estendido na cozinha. O corpo que há momentos fumava cigarros na cozinha.
Olha no seu corpo no chão. Olha no seu corpo de pé. Ambos estendidos.
No ar. Ambos seus.
Onde ir?

gabardines azuis


Nina Glaser

Silencia-te. E olha-me. Não precisas. Não precisas de falar. De me dizeres que nestas noites te apetece correr mundo e fugir dos dias castanhos. Olha-me. Sorrio-te. Entendimento. Identificação.


Olho nelas. A pequena é quem manda. Quem coordena todas as outras. As penas são lustrosas. De um castanho creme brilhante. Quando passa, a outras afastam-se e dão-lhe passagem. Debica o milho com a assertividade de um tigre na selva. Chamo-lhe de Laura. Laura porque a minha avó se chamava de Laura e era assim meio bege, meio loura. E tinha nariz de galinha chinesa. Como o da minha irmã. Gavionas. E belas. De testa grande. Larga. Até às orelhas pequenas. Tão pequenas que nos rimos todos. Mas tu ouves?


Nesta minha capoeira só há um galo. De mês a mês é abatido. Ensanguentado para bem da comunidade. E das minhas manhãs de milho e ervas. Eu que sempre adorei galinhas e julgava que elas punham muitos ovos ao dia. Cuspo. A Idalina come o meu cuspo cor de cola. A Idalina é preta. Ou semi-preta. Tem olhos tristes. A Idalina. E boca de lampreia. Uma galinha com boca de peixe. É assustadiça. Por isso gosto dela e a protejo. Vinde a mim os fracos que eu tenho missões na vida.


Olha-me nos pés. Nos pés nus que pisam caca de galinha. Estão apodrecendo com as ervas e flores amarelas que trouxe quando aqui me sentei. Neste galinheiro imundo com cheiro a palha seca e a fezes. As sementes germinam. E eu neste calor de cola perco-me observando estas senhoras. Loiras. Morenas. Ruivas. Poedeiras. Galiformes. Fasianídeas. Olho. Nestas aves que não sabem voar. Nem aprendem. Nem querem. Nem pensam nisso. Debicam. Debicam o que lhes dou. Conto-lhes uma história. Com intervalos curtos. Dou-lhes a ouvir a Marianne que é linda. E danço. Bamboleio-me de encontro à rede.


Visita-nos a Carmen. De peito inchado e carnudo. Ri-se de mim. E de nós. A Carmen que só quer amor na vida. E fondues de chamas que só se apagam com sopros coloridos de vinho. Ah Carmen se fossemos meninas ganhavas-me na macaca. Como me ganhas na kizomba e no altar com bacias de água benta. Os gatos. As galinhas. E os leitões que colocas dentro dos bolsos dos casacos. Tu de mamas mãe. Eu de coração grande para te beijar. E adorar. És mãe. Parece que foste mãe outra vez. Desinteresso-me. Olho na Idalina. E na Carminda cor de barco velho na praia. Feliz a Carminda. Que se passeia e encontra o que as outras não viram. Ainda que procurassem. Existem atracções. E a Carminda atrai o que se esconde. O oculto. Distraidamente uma puta com sorte.


Há uma alfândega aos meus pés.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Ursos de peluche e carros de corrida



Charles Gatewood


Serve-me. Quero que me sirvas. Que te vergues quando passo. Que beijes o chão que piso. Que me adores e chores. E sofras. E implores. Por uma palavra. Por um gesto. Por um aceno. Meu. Ajoelha-te. E chora. Quero que chores. E te doa. Que te doa este meu silêncio. A omissão de palavra. E o meu sorriso em ti. Desespera. Por não saberes porque rio. Ao que se deve a minha gargalhada. Abro as pernas. Cheira.

Não te conto o que faremos. Faremos. Não te digo que voaremos. Voaremos. E os suspiros. Ai. Os suspiros. Há quem julgue que isto é sadismo. Pobres. Há quem pense que é doença. Ignorantes. Há quem na sua vidinha de casa, trabalho nos olhe cansados. Sorri. Sorri porque te vou maltratar. Porque te vou humilhar. E rebaixar. Porque te vou subjugar. E desconsiderar. Cresces... e eu molho-me em lagos de nevoeiro espesso.

Fecho o livro e deixo-te lá dentro. Preso entre a página vinte e dois e vinte e três. Comecei agora. Deste-me sono. As mulheres na literatura são bem mais interessantes. Porque falar no feminino é descrever o mistério. Tu sabes que não existe imaginação em mim. Que o que descrevo. Penso, vivo e sinto. Ai louca. Louca de círculos em círculos bombardeneanos.

Segurei-lhe a cabeça enquanto vomitava na carpete cinzenta. Os cabelos estavam macios. Macios como os meus dedos de unhas sujas na sua testa. Incentivei-a a deixar-se ir. A não recear sujar-me. Nem a mim, nem a carpete cor de nada. O cheiro a azedo penetrou-me e arrepiei-me. Ergui-lhe a cabeça com dificuldade. Os meus lábios pediam os seus. Encostei o tronco. O meu ao dela. Beijei-a. Limpei o vomitado à palma da mão e cuspi na carpete cor de noite embriagantemente triste.

Prótese. Empresta-me a tua prótese.

Vou oferecer-te um almoço. No final fodes-me e cortas-me as pernas e os braços. Deixas o meu tronco sobre o sofá preto. Num orgasmo...

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Vodka com sabor a baunilha


Ruela - Anarchic Freak Show

 
Vês aí esses caderninhos? De letras miudinhas... Tão miudinhas que não consegues ler. Vês? Eu leio. Eu consigo. Por vezes. Por vezes consigo ler. Consigo lembrar-me de como era. Eu. E o mundo. O meu. Porque falamos sempre do nosso. Esta noite sonhei que morria. Que me baixava para tirar cogumelos do congelador e o wok me caía na cabeça, matando-me. Morte absurda a minha.


Dias. Noites. Dias. Noites. E mandas-me dançar? Mas eu quero é chorar. Chorar estes dias e estas noites.

Cogumelos. Seitan. Cebolas das pequeninas que têm um nome que não lembro. Pimenta. Alho. Alho francês. Rebentos de soja. Couves de bruxelas. Verde. Quero verde. E champanhe que me deram para me embebedar sozinha. É triste beber sozinha. Não? Sim, talvez não. Desde que tenhamos copos lavados. Não te rias. Eu falo de coisas sérias. Por vezes torna-se difícil ter copos lavados. Ainda que eu tenha muitos copos. Raramente parto um. Eu parto pouca loiça. Sabes? Sabes. Eu sei que sabes.

Sim, é verdade, ando cansada. Cansada de pessoas. E radicalismos. Todos tem opinião formada sobre tudo. Todos. Andam todos tão bem mal informados. Tão bem partidários. E apegados a causas que os fazem clicar num botão dizendo "Eu apoio". Que apoio! Eu apoio aqui sentado de barriga sobre os joelhos. Eu sou contra a morte dos animais, dos bichos, das mulheres, dos idosos, das criancinhas, dos besouros, das carochas, dos pénis com um só testículo. Vamos todos ver verde. Verde! Gritam! E agora vamos todos ver vermelho! Vermelho! Gritam! E nunca puseram os olhos no amarelo...

Dá-me um cigarro.

Eu não sou diferente. Apenas me deito e sonho em ser. Ou estar. Ou morrer.

Tenho os pés gelados.


A minha mão de unhas arranjadas e cigarro entre os dedos aqui pousada excita-me. A minha mão é bela. Neste momento. Só por este momento. Consegues sentir a beleza desta pausa? Que nada tem a ver comigo. Tem somente a ver com aquela mão, aquela mão pousada com um cigarro entre os dedos neste teclado. Aquela mão que é minha. Mas podia ser tua. Ou dela. Sente. Por vezes a beleza atinge-me de tal forma que sinto que nada mais há a partilhar. Uma impossibilidade.

Chamaram-me de padeira de Aljubarrota. Um logro. Que logro!...

Vou jantar. Vens? Tenho vinho. E um beijo de seguida.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Black Demon



Nina Glaser


Caem-me as penas. São as folhas. Como as folhas. Voam ao mar. E sobem neste corrupio de cabelos e cachos encaracolados de algo que já foi meu. Sentes o meu cheiro a baunilha? Foi de pêssego e tâmara que fui feita. Que dizes? Não sei. Mas sei que todas as noites penso em dó e ré. Em mi e fá. Penso em cânticos e encantos. Sem dor. Nem pudor. O meu corpo é teu. O corpo que tu queres torturar. Nas horas e horas de passagem. Lembras como foi a viagem? E em como adormeceste sobre o meu colo enfarinhado de suor e ressacas? Foi há uma vida. Há um século de teimosia entre nós. Que se foda dizes tu. Que me foda digo eu. E fodo. Não sentes. Mas eu sinto. Tenho a cona ardente. Xiu.


Andas descalço. De pés ensanguentados. Doente. Com fome. Miserável. Dás-me dó. Ajudo-te. Dás-me dó. Dou-te uma nota. Dinheiro. Toma. Não. Já, já não. Quero foder-te. Sim, eu mulher limpa, imaculadamente promíscua, cheirosa, com casa, e roupa, e unhas arranjadas, quero foder-te. E vou foder-te. Pago-te. Pago-te para te foder. Para me baixar e enterrar em ti e nesse teu membro sujo e malcheiroso. Não tenhas medo. Apenas vou foder-te. Vais arfar. E gritar. Eles que se fodam. Sim, eles que se choquem. Ou excitem. Que se fodam. Eu já nada tenho a perder. Não é uma questão de imagem. É uma questão de... ser. Ou não ser. E sou. Que se foda. Sou.

Deita-te na pedra fria porque está fria. Cheiras mal. Muito mal. Adoro-te. Fazes-me pena. Sempre que te dei dinheiro culpei-me. Porque é fácil dar-te dinheiro. Ainda que me faça falta. Dou e fujo. Dou e choro. Dou. Dou e culpo-me de dar. De comprar a minha paz com cinco euros. Com vinte euros. Perdoa-me. Perdoa-me mas eu nada posso. Nada posso contra este movimento de pele e carne que me consome. Contra este trânsito que aflui entre as minhas pernas. Pia. Poderia ser pia. Escolhi ser puta. É-me mais fácil. E existe o riso. Ainda que o silêncio do chicote seja em mim uma névoa. Já te falei nesta névoa? Não. Sei que não. Apenas chorei junto aos teus pés. Aos que trazias ensanguentados. Aos que da última vez vi dentro de um par de ténis. Um alívio, sabes? Que alívio eu senti. Por te saber bem calçado. Mas agora chupo-te. Chupo-te para que sejas feliz. Uma única vez na vida serás feliz. Inteiramente feliz. Porque eu assim quero e assim tenho certeza. Arrogante. Sim. Valoriza o que eu quero enquanto te chupo. Estás no céu. Ou no Inferno. Onde queiras. E eu sou tua. A tua mulher. Numa cama confortável. Quente. Aninhados.

Tens sapatos mil. E roupa. Amanhã viajas. Atravessas o Atlântico e vais à praia dançar com baianas ou índias. Pagas. Tiras do bolso e pagas. E eu sorrio. Daqui. Deste lado do mar sorrio-te. Quero-te. Quero-te tanto bem que me enterro em ti. Enterro para que te possa matar. Não tenhas medo. Afinal a vida é esta e isto. Sentes o quente? O quente das minhas entranhas. É uma vertigem. É. Sou. És. Isso. Cavalga. Pobre mendigo. Tens fome? Pois come. Come-me.

Estás quase? Sim, eu sinto. Quase. Quase. Não pares. Quase. Quase. Sim. O paraíso feito mulher, e pernas, e membros, e braços, e mãos, e lábios, e... e tudo. Sim. Isso.

Tuf tuf

O silêncio de uma vida. O ruído de uma arma.


Tuf tuf


Descansa. Estás no paraíso.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Pedras


Kevin Bubriski

Existe um palco. Nele um homem sentado numa cadeira. A seu lado, a cerca de três metros, um outro homem está sentado numa outra cadeira. A cadeira onde está sentado o primeiro homem de vez em quando range. Os dois homens não se olham. Olham para a sua frente. No publico sentado na sua frente. Os dois homens estão sentados como se desconhecessem a existência um do outro. O primeiro homem veste um casaco de malha bege que pende do seu lado direito. Do lado onde o segundo homem se encontra sentado. Se o segundo homem o olhasse poderia talvez sentir a leveza com que o casaco de malha pende do corpo magro do primeiro homem. Mas o segundo homem não o olha. Olha no publico. Olha em nós. Onde me encontro. Onde me encontro sentada. Onde me sentei depois de descer o corredor escuro com carpete vermelha. Sei que é vermelha porque lhe sinto o cheiro a mofo. Porque assim quero que seja. Porque assim a imaginei. Olho nos dois homens que olham em nós. Tento ver se os seus olhos me olham. Não consigo. Está demasiado escuro e os homens demasiado parados. Observo a gola da camisola de lã azul do segundo homem sentado no palco. A gola está subida mas enrolada, desajeitadamente dobrada sobre o pescoço. Tenho vontade de endireitar a gola do segundo homem sentado no palco. De lhe dar um jeito. Tento abstrair-me da gola e olho nas pessoas que sinto sentadas em ambos os lados. O publico a meu lado faz parte da cena. Também ele se encontra parado e imóvel. Por vezes oiço ranger uma cadeira. Tento verificar se é a cadeira do primeiro homem. Por vezes é. Noutras o som vem de trás de mim. Alguém. Talvez um outro homem se tenha sentado numa outra cadeira que range da mesma forma que a cadeira onde está sentado o primeiro homem sentado no palco. Olho nos dois homens. Nos dois homens com mãos caídas entre as pernas. Olho e aguardo. Aguardo que algo aconteça. Que digam algo. Que se levantem. Que comecem. Que se olhem. Aguardo. O publico a meu lado aguarda? Não sei. Olho no homem sentado a meu lado. Vestido com um casaco de malha igual ao do primeiro homem sentado no palco. Espreito e verifico que a ponta direita do casaco de malha do homem sentado a meu lado pende da mesma forma que o casaco de malha do primeiro homem sentado no palco. Com a mesma leveza pende do corpo magro. Estranho a coincidência. Procuro ver quem se senta além do homem sentado a meu lado. Dificilmente enxergo um outro homem com uma camisola de lã igual à do segundo homem sentado no palco. Tento ver como se encontra a gola da camisola de lã azul do homem sentado ao lado do homem que se encontra sentado a meu lado. Sim, está desajeitadamente dobrada, enrolada à semelhança do segundo homem sentado no palco. Estranho. Mais uma coincidência. Penso que o anormal seria não estranhar. Aperceber-me de tudo isto e apenas descrevê-lo seria desconcertante. Mas não consigo deixar de estranhar. E mais estranho ainda , quando verifico que o homem sentado na fila oposta à minha possui um casaco de malha bege igual ao do primeiro homem sentado no palco. Com uma ponta que pende para fora da cadeira da mesma forma que o primeiro homem sentado do palco. Visualizo a ponta do casaco e tenho vontade de lhe tocar. De sentir a malha da ponta que pende do casaco do homem sentado na fila a meu lado. Ergo-me e devagarinho dou dois passos ao encontro do homem da fila a meu lado. Espero que ele me olhe. Mas o homem sentado na fila ao lado daquela onde eu estava sentada mantém o seu olhar firme no palco. Olhando os dois homens sentados lado a lado. Olhando na sua frente. Sem sequer se aperceber da minha presença. De um corpo, o meu, a seu lado. Baixo-me e de cócoras toco na ponta do casaco de lã bege do homem sentado de lado na minha frente. Sinto-lhe a maciez. As malhas. O cheiro da roupa de Inverno e do vento. Agarro na ponta do casaco do homem sentado e levantando-a coloco-a sobre o seu joelho.

Estou sentada no palco. Olho no publico sentado na minha frente. A minha cadeira range.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Água


Paula Rosa - Meta For

- Falta-me algo...
Não sei o que te diga. Silencio-me.

- Falta-me algo.
Interrogo-me.

- Falta algo...
Sim. Eu sei.

- Algo que...
Que não sabes. Que não sabemos. Saberá alguém? Esta insatisfação presa aos cabelos que despenteamos para sentirmos a vida. Como se a vida se pudesse desgrenhar e mover com o vento. Como se a velocidade fosse condição à vida. E o sentir tivesse de ser constante. Às pernas só é dada a condição de movimento. E do repouso tem-se medo.

- Sinto que...
O afecto nos faz falta. Mas nunca nos bastamos com ele. O amor nos preenche, mas deixa sempre espaço vazio. Os filhos crescem. Os pais morrem. Os amigos zangam-se e esmorecem. As fodas são somente fodas. E as namoradas perdem-se entre o trabalho e os copos.

- Há algo que...
... gostarias de fazer. Mas o quê? O que falta? Faz-se tudo sem saber. Faz-se nada. Inicia-se sem dúvidas e no final em gargalhada a questão o que estou eu a fazer? Bebe-se um copo. Embebeda-se a mente. Fuma-se drogas, embala-se o corpo. Mas que raio...

- Falta-me algo.
Procura deus. Deus é pequeno. Deus não enche quem não o quer. Aliena-te como te for possível. Eu... eu não te sei responder.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Lavanda


Veloso - Tentação da carne

Eu conto-te. Conto para que saibas. Ainda que nada haja a conhecer. Uma circunferência. Um ciclo iniciado após uma volta. Conto-te. Existia uma insatisfação que lhe corroía os ossos. O abrir a porta de madeira da casa. Aquela mancha junto à fechadura da porta. Esperava-o. Confrontava-o. Com a noite. A noite passada dentro das paredes encerradas por aquela porta de madeira. Um beijo nos lábios. Um sorriso. Ou um caminhar para lá. Para longe do corpo dele. Distraidamente sempre para longe. Porque há sempre coisas a fazer. A ajeitar. A arrumar. A delinear. A projectar. Dois corpos que se movimentam num mesmo espaço. Com pequenos. Leves. Breves toques. Uma mesa e quatro cadeiras. Duas cadeiras ocupadas. E o silêncio. O silêncio mesmo quando não existia silêncio. Um olhar na toalha branca. Imaculada porque se quer imaculada. Diz. Sim. Diz-me como te correu o dia. Quem? Sim. Fala-me do teu dia. O meu? O meu... Sorrisos. Breves. Um beijo de fugida. A loiça. O sofá. Pousa a cabeça no seu ombro. Mais um beijo. E dois corpos sentados lado a lado. Ele loiro. Ela morena. Distantes. Distantes pelo enjoo. Pelos dias e dias de toques. Pelos dias e dias de proximidade. Poderiam ser interrompidos com choros. E bebés. Mas não. Apenas o silêncio do noticiário da televisão. E um nevoeiro pairando sobre o que já não era.

Rompe-se a corrente.

Ela era vento. Era chuva. Era Inverno. Era fogo. Era mar. Ela era riso. E sorriso. E viver. Era ruiva. E morena. Era o sofá desarrumado. E o pavimento sujo. Era migalhas na cama. E manhãs atribuladas. Era fugida. E desassossego. Era vertigem. E suor. Era televisão desligada. Era música em silêncio. Um gemido. Um olhar. A cumplicidade. Era ele. E era ela. Eram outros. Que se passeavam por ela. Era ciúme. Era medo. Prazer. E prazer. E amor descomplicado. E amor porque te quero. Amor porque sim. E sim. É assim. Amo-te. Amo-te. É desejo. Que não quero perder. E saturar.

Corrente inexistente.

Hoje ele senta-se no sofá. Os dois loiros. Em frente ao noticiário. De cabeça contra o ombro. E um sorriso. No sofá branco. Depois do jantar na mesa com toalha vermelha. Imaculada. Depois do beijo de fugida. E dos dias. Do Conta-me como foi. Sim? O meu? Nada de especial. Quem? Ah ela. Ah ele. Sim. Sim. Temos de ir. E fazer. Sim, tens razão. Tenho sono, vou deitar-me. Tudo bem. Não te preocupes. Ele chora. Eu vou lá. Sim. E no rosto a segurança de sabermos qual a nossa infelicidade. E nas mãos as referências apreendidas e aprendidas. No cabelo o sabor de quem provou. Na boca a esperança de um dia voltar a ser. Um retorno.

Nada. Nada. Nada mais a acrescentar. Conto-te. Contei-te. Parte.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

sopas dispersas


Charles Gatewood

A minha pele está transparente. Aguarda. Aguarda-te. Dos meus intestinos o mundo quer expulsar-me. Eu comigo dentro. Corro. Sinto o odor do teu cheiro. Intenso. Dou-te uma mão e aguardo que a música comece. Os meus pés dançam parados. E toda a música é absorvida pelo meu corpo. Danço-te. Na sombra. O meu apetite não matarás. Ele vive do alimento e nunca através dele surgirá o seu desaparecimento. Sou uma marioneta. Nas mãos de quem me quiser. Nas tuas. Ou nas dele. Movimentem. Movimentem-me. Da minha boca apenas silêncio e este sorriso. Subo ao palco empurrada por ti. Sento-me. Deito-me e durmo. Empurras-me com um pé. Rio. Poderia gritar mas aprendi a ser domada. E dominada. E submetida. E imobilizada. Revolve-me a pele. E a carne. O restante revolvo eu. A essência. Que te dou e retiro.

Ela quer que eu aponte. Baixo o dedo. Baixo a mão. Baixo o braço. Acontece. Digo-lhe. Acontece. Ela implora-me para que aponte. Baixo o dedo. Baixo a mão. Baixo o braço. Roga para que uma palavra seja dita. Expulsemos os nossos demónios através dos outros. Através dos demónios dos outros. Olho-a. Mas a minha natureza é de entendimento. Penso em contar-lhe que um dia abandonei tudo. Retirei-me da vida e dormi. A minha pele virou cinzenta e as minhas ancas largas encolheram. Os espelhos deixaram de me reflectir e não havia como chorar. Contar-lhe que o meu pai delira e se ira contra mim.

Vou despir-me. E vestir-me. Tenho vontade de ser actriz. Enfiar o corpo num vestido coleante preto e escorregadio. Enfiar nos pés os sapatos pretos mais altos que tenho. Ser grande em altura. Prender os seios um contra o outro de forma a que visualize o rego olhando na frente. Colar o cabelo à cabeça e colocar a peruca morena comprida. Sombrear os olhos de negro e prata. Esticar as pestanas ao infinito. Dar cor vermelha às faces. Matar-te porque me desejas e eu nada posso fazer a não ser esvair-te em sangue e suor.

Existe uma tesão em mim. Esta tesão que me faz andar. E caminhar. E deitar-me numa marquesa. Existe tesão em mim. Sentes? Sinto.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Chuva de lava


Ludmila - Couple

A porta de vidro estava fechada. Premiu o botão da campainha. Os cabelos caiam sobre os olhos dificultando a visão mas teve preguiça de os retirar. Click.
- Quem é?
- Sou a 77479077. Estive cá o mês passado. Simulei um enforca-mento. Agora queria...
- Só um momento.
A porta divide-se em duas que recolhem deslizando para os lados. Entra. A sala de cor metálica prata está escura e dificilmente vê o balcão onde anteriormente fora atendida. Era uma tarde de Sexta. Saíra do trabalho mais cedo. Faltara novamente a corrente eléctrica. Um novo atentado. Mais de cem feridos. Estilhaçados pelas pedras do buraco que os protegia.
A sala ilumina-se e uma mulher de casaco de fazenda castanho entra na sala por uma porta atrás do balcão.
- Hoje fechámos mais cedo. As festas começam amanhã...
- Sim...
- ... Não é época para se querer morrer. Todos estão eufóricos - diz sorrindo.
- Não será, responde torcendo os dedos na camisa.
- Mas que pretende? Não tenho ninguém neste momento que possa atendê-la.
Hesita. Não é época para se querer morrer. Existe outra mais indicada?
- Eu pretendo simular o choque frontal...
- Não pode voltar para a semana?
- ... mas não o condicionado. Quero um real.
- Como real?
- Não pretendo o vosso cenário. A garagem. O condicionamento. A experiência em ambiente fechado. Quero lá fora. Na estrada.
- Mas sabe que é ilegal?
- Sei. Mas disseram-me...
- O que lhe disseram? Aqui só fazemos simulações legais. Estamos registados e certificados.
- Sim... mas pensei que pudessem. Só esta vez.
- Mas... já viu o nosso catálogo?
- Sim. Já sou vossa cliente há uns meses. Como lhe disse o mês passado simulei o enforcamento...
- E não gostou?
- Gostei. Muito, mesmo. Mas quero... preciso... sinto que... pensei em fazer algo diferente.
- Mas tem outras... experiências. Como lhe disse o nosso...
- Eu sei. Já simulei afogamento... a pira... a tortura de Santa Ágata, a de Santa Luzia, e ainda que através de uma outra agência... a overdose e o ataque cardíaco... tenho gostado muito de todos os simulacros, mas ouvi falar no choque frontal real e senti-me seduzida.
- Olhe. Peço-lhe. Volte para a semana. Falaremos melhor e de certeza que conseguiremos arranjar-lhe uma experiência de morte que a agrade. Certo?
- Certo...